O pronome demonstrativo em “— Não — disse Jacinta —, eu cha...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q3546362 Português
Leia o texto para responder à questão.


Omelete


Pior foi Jacinta, que perdeu o marido para uma omelete. Quando alguém — desinformado ou desalmado — perguntava perto da Jacinta se “omelete” era masculino ou feminino, ela respondia “feminino, feminino”. Depois suspirava e dizia: “Eu è que sei”. As amigas tentaram convencer Jacinta de que o Luiz Augusto não merecia um suspiro. O que se poderia dizer de um homem que tinha abandonado a mulher de dez anos de casamento, para não falar em cotas num condomínio horizontal da zona Sul, por uma omelete bem-feita? Mas Jacinta não se conformava. Foi procurar um curso de culinária. Pediu aulas particulares e específicas. Queria aprender a fazer omelete. A professora começou com um histórico da omelete e sua força metafórica. Uma omelete justificava a violência feita aos ovos. Uma omelete... Mas Jacinta não queria saber da história da omelete. Queria aprender a fazer.

— Bem — disse a professora —, a omelete perfeita...

— Eu sei, eu sei — interrompeu Jacinta.

Sabia como era a omelete perfeita. Durante todos os seus anos de casada tinha ouvido a descrição da omelete perfeita. Luiz Augusto não se cansava de repetir que a omelete perfeita devia ser tostada por fora e úmida por dentro. Que seu interior devia se desmanchar, e espalhar-se pelo prato como baba. “Baveuse, entende? Baveuse.

Durante dez anos, Jacinta ouvira críticas à sua omelete. Quando Luiz Augusto anunciara que encontrara uma mulher que fazia omeletes perfeitas — melhores, inclusive, que as do Caio Ribeiro — e que iria morar com ela, acrescentou: — Você não pode dizer que não lhe dei todas as chances, Cintinha.

Jacinta sabia a teoria da omelete perfeita. Queria a prática. Precisava aprender. O curso intensivo durou duas semanas. No fim do curso, a professora recomendou que Jacinta comprasse uma frigideira especial, de ferro, para garantir a omelete perfeita. Não havia como errar. Jacinta telefonou para a casa de Beatriz e pediu para falar com Luiz Augusto.

— Precisamos conversar.

— Está bem.

— Aqui.

— Certo.

— Outra coisa.

— O quê?

— Não coma nada antes. 

Quando Luiz Augusto chegou, Jacinta não disse uma palavra. Apontou para a mesa, onde estava posto um lugar. Luiz Augusto sentou-se. Jacinta desapareceu na cozinha. Reapareceu quinze minutos depois com uma omelete dentro de uma frigideira nova. Serviu a omelete e ficou esperando, de pé, enquanto Luiz Augusto dava a primeira garfada. Luiz Augusto disse: — Você chama isto de baveuse?

— Não — disse Jacinta —, eu chamo isto de baveuse.

E acertou com a frigideira a cabeça de Luiz Augusto, que caiu morto com a cara na omelete.


VERISSIMO, L. F. (Adaptado). Verissimo antológico — meio século de crônicas, ou coisa parecida. São Paulo: Objetiva, 2020.
O pronome demonstrativo em “— Não — disse Jacinta —, eu chamo isto de baveuse.” funciona como um recurso de coesão textual de:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Tema central: Coesão textual, especificamente o emprego do pronome demonstrativo como recurso catafórico. Trata-se de reconhecer como pronomes auxiliam na ligação lógica entre partes do texto, garantindo clareza e fluidez.

Justificativa da alternativa correta (B – Catáfora):
No trecho analisado: “— Não — disse Jacinta —, eu chamo isto de baveuse.”, o pronome “isto” refere-se a algo que só será explicitado em seguida (ou seja, a palavra baveuse). Esse movimento de antecipar um termo/texto que vem depois caracteriza-se como catáfora. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa): “A catáfora é uma antecipação de elementos que serão mencionados posteriormente na frase.” Assim, pela norma-padrão, quando um pronome aponta para um termo que ainda será apresentado, configura-se catáfora.

Análise das alternativas incorretas:

A) Anáfora: Incorreta. A anáfora retoma um termo já mencionado. Aqui, “isto” não retoma, mas antecipa, portanto não é anafórico.
C) Elipse: Incorreta. Elipse é a omissão de um termo entendido pelo contexto. Todos os termos estão explicitados nesta frase.
D) Substituição: Incorreta. Substituição ocorre quando um termo suprime/recoloca outro já dito, por coesão referencial ou léxica, o que não acontece aqui.
E) Sinonímia: Incorreta. Sinonímia é a repetição do conteúdo semântico por sinônimos, e não por antecipação de sentido.

Estratégia e pegadinhas: Preste sempre atenção se o pronome está apontando para trás (anáfora) ou para frente (catáfora). Em provas, palavras como “isso/isto/aquele” frequentemente antecipam conceitos novos ou sintetizam frases seguintes, como neste caso.

Resumo da regra:
Catáfora: referência para frente.
Anáfora: referência para trás.

Referências: Bechara, Evanildo; Cunha & Cintra; Manual de Redação da Presidência da República.

Gostou do comentário? Deixe sua avaliação aqui embaixo!

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo

Comentários

Veja os comentários dos nossos alunos

Gab letra - B -  eu chamo isto de baveuse.”, o pronome “isto” refere-se a algo que só será falado em seguida. Esse movimento de antecipar um termo/texto que vem depois caracteriza-se como catáfora

Sim, aqui é pra entender que mesmo sendo a mesma coisa ela usou isto (comum na catafora) pra falar que algo diferente do que ela falou.

Exemplo: ISTO é Rock e não isso que voce me mostrou

Clique para visualizar este comentário

Visualize os comentários desta questão clicando no botão abaixo