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Q3542290 Português
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Muito calor


    Ontem, com aquele calor todo, apareceu um homem disposto a discutir comigo. Eu discuto muito mal, principalmente no verão. O homem defendia os agiotas. Isto é, não defendia. O que ele dizia era que, afinal de contas, os agiotas não sei o que têm, porque é preciso não esquecer que, de um certo ponto de vista, é preciso encarar a questão, aliás, não sei o quê... Era mais ou menos isso o que o homem dizia. Ele citou vários exemplos e de vez em quando me perguntava:

    — Você não acha que eu tenho razão?

    Eu não achava nem deixava de achar, de maneira que não dizia nada. Aí o homem insistia:

    — Vamos, diga, isso é ou não é um fato?

    — É...

    — Pois bem. Agora você precisa ver outra coisa. Aqui no Rio de Janeiro há não sei quantas casas de penhor. Muito bem. Pois então vamos fazer um cálculo...

    Aí o homem fazia um cálculo. Depois perguntava se eu não concordava com o cálculo, se não achava justo, se achava exagerado — aí teve uma hora que não sei o que foi que eu disse que o homem gritou:

    — Mas então é você que defende os usurários! Esse argumento seu...

    E ele me provou por a mais b que o meu argumento era uma grande arma na mão dos usurários. Aliás, reparando bem, uma arma de dois gumes. Eu, a bem dizer, não me lembrava mais qual era o meu argumento, nem mesmo sabia que tinha dado um argumento. O homem falou sobre taxas de juros, avaliação, leilão e monte de socorro, fiscalização, prazo e outras coisas desse gênero. Confesso que fiquei um pouco desorientado. O homem então se exaltou não sei por que e perguntou se eu queria que os usurários me emprestassem dinheiro a um por cento ao mês.

    — É isso que você quer, não é?

    — Eu, não… — Então o que é que você quer?

    Respondi que eu não queria nada. Ele disse que "não quero nada" era um modo de dizer. E perguntou outra vez, ameaçador:

    — Mas então o que é que você acha? Eu não compreendo você! Ora você diz uma coisa, ora outra. Vamos, me explique, o que é que você acha?

    Respondi com a máxima sinceridade:

    — Eu acho que está fazendo muito calor.

    O homem ficou um pouco zangado e disse que comigo não se podia discutir. Não valia a pena discutir. Para que ele não ficasse mais zangado, concordei:

     — Pois é isso o que eu sempre digo.

    O leitor me desculpe, mas não sei o que falamos mais nessa palestra tão interessante e instrutiva. O que sei é que estava fazendo muito calor, e que no momento em que escrevo continua fazendo muito calor.


BRAGA, R. O Conde e o passarinho e Morro do Isolamento. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.
O sarcasmo que se exprime no excerto “O leitor me desculpe, mas não sei o que falamos mais nessa palestra tão interessante e instrutiva.” é decorrente apenas:
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Tema central: Interpretação de texto – Figuras de linguagem (sarcasmo)

A questão aborda a identificação do sarcasmo em um trecho, habilidade essencial em concursos para professores, pois envolve compreensão profunda do texto e sensibilidade ao uso conotativo da linguagem.

Conceito-chave: O sarcasmo é uma figura de linguagem que consiste em expressar o oposto do que realmente se pensa, geralmente em tom crítico ou depreciativo, diferindo da ironia por ser mais mordaz. Segundo Bechara, o sarcasmo é um tipo especial de ironia, "frequentemente, mais cruel e hostil".

Trecho analisado:
“O leitor me desculpe, mas não sei o que falamos mais nessa palestra tão interessante e instrutiva.”

O sarcasmo se constrói no contraste: o narrador qualifica ironicamente a conversa monótona e caótica como “tão interessante e instrutiva”. Pela interpretação textual, percebemos a crítica velada e o distanciamento irônico do narrador quanto ao suposto valor do diálogo.

Alternativa correta: D – “do emprego de ‘palestra tão interessante e instrutiva’ para se referir à situação.”
Justificativa: É nessa combinação de termos positivos para algo nitidamente desinteressante que reside o sarcasmo. O efeito resulta não apenas do substantivo “palestra”, mas do uso adjetivado e do advérbio de intensidade, compondo a discrepância deliberada entre forma e conteúdo.

Análise das alternativas incorretas:

A) O simples pedido de desculpas não caracteriza sarcasmo; é apenas polidez.
B) O uso isolado de “palestra” não seria suficiente para criar o sarcasmo.
C) Embora o advérbio “tão” intensifique, ele apenas reforça o efeito, mas não é a causa principal.
E) Admitir não saber sobre o que se falou gera humor ou autocrítica, não sarcasmo diretamente.

Dica para concursos: Observe sempre quando elogios ou intensificadores descrevem situações negativas, pois são indícios claros de sarcasmo ou ironia! Tal sensibilidade interpretativa diferencia um leitor comum de um candidato preparado para questões sofisticadas.

Referência: Bechara, Moderna Gramática Portuguesa, Figuras de Linguagem.

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