Tanto a linguagem quanto a estrutura do texto per se reflet...

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Q3542288 Português
Texto para responder à questão


Muito calor


    Ontem, com aquele calor todo, apareceu um homem disposto a discutir comigo. Eu discuto muito mal, principalmente no verão. O homem defendia os agiotas. Isto é, não defendia. O que ele dizia era que, afinal de contas, os agiotas não sei o que têm, porque é preciso não esquecer que, de um certo ponto de vista, é preciso encarar a questão, aliás, não sei o quê... Era mais ou menos isso o que o homem dizia. Ele citou vários exemplos e de vez em quando me perguntava:

    — Você não acha que eu tenho razão?

    Eu não achava nem deixava de achar, de maneira que não dizia nada. Aí o homem insistia:

    — Vamos, diga, isso é ou não é um fato?

    — É...

    — Pois bem. Agora você precisa ver outra coisa. Aqui no Rio de Janeiro há não sei quantas casas de penhor. Muito bem. Pois então vamos fazer um cálculo...

    Aí o homem fazia um cálculo. Depois perguntava se eu não concordava com o cálculo, se não achava justo, se achava exagerado — aí teve uma hora que não sei o que foi que eu disse que o homem gritou:

    — Mas então é você que defende os usurários! Esse argumento seu...

    E ele me provou por a mais b que o meu argumento era uma grande arma na mão dos usurários. Aliás, reparando bem, uma arma de dois gumes. Eu, a bem dizer, não me lembrava mais qual era o meu argumento, nem mesmo sabia que tinha dado um argumento. O homem falou sobre taxas de juros, avaliação, leilão e monte de socorro, fiscalização, prazo e outras coisas desse gênero. Confesso que fiquei um pouco desorientado. O homem então se exaltou não sei por que e perguntou se eu queria que os usurários me emprestassem dinheiro a um por cento ao mês.

    — É isso que você quer, não é?

    — Eu, não… — Então o que é que você quer?

    Respondi que eu não queria nada. Ele disse que "não quero nada" era um modo de dizer. E perguntou outra vez, ameaçador:

    — Mas então o que é que você acha? Eu não compreendo você! Ora você diz uma coisa, ora outra. Vamos, me explique, o que é que você acha?

    Respondi com a máxima sinceridade:

    — Eu acho que está fazendo muito calor.

    O homem ficou um pouco zangado e disse que comigo não se podia discutir. Não valia a pena discutir. Para que ele não ficasse mais zangado, concordei:

     — Pois é isso o que eu sempre digo.

    O leitor me desculpe, mas não sei o que falamos mais nessa palestra tão interessante e instrutiva. O que sei é que estava fazendo muito calor, e que no momento em que escrevo continua fazendo muito calor.


BRAGA, R. O Conde e o passarinho e Morro do Isolamento. 5ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 1982.
Tanto a linguagem quanto a estrutura do texto per se refletem o gênero textual:
Alternativas

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Comentário do Gabarito – Interpretação e Gêneros Textuais

Tema central: A questão avalia a capacidade de identificação do gênero textual a partir das características de estrutura e linguagem de um texto literário, exigindo interpretação fina dos elementos constituintes do gênero.

Justificativa da alternativa correta (E – Crônica):

A crônica é um gênero textual marcadamente breve, caracterizado por narrativas do cotidiano, usando linguagem simples, leve, e, muitas vezes, pessoal. Destaca-se por apresentar situações triviais, reflexões ou cenas urbanas, frequentemente com humor ou subjetividade.

No texto de Rubem Braga, o narrador relata, de modo descontraído, seu incômodo diante de uma conversa prosaica, em um contexto corriqueiro (o calor do dia). Há ausência de complexidade estrutural, predominância do enfoque cotidiano, tom conversacional e subjetivo — todas marcas centrais da crônica, como discutem Candido (1984) e Bechara (Gramática Escolar da Língua Portuguesa).

Análise das alternativas incorretas:

A) Conto: Difere da crônica por exigir enredo mais elaborado, personagens delineados e, geralmente, desfecho surpreendente. O texto baseia-se mais no cotidiano imediato do que na ficção estruturada típica do conto.

B) Depoimento: Este gênero é um relato formal de experiência pessoal, geralmente para testemunhar um fato; não é o caso, pois não há intenção de comprovação nem se segue estrutura de relato testimonial.

C) Romance: É extenso, com múltiplos personagens e tramas desenvolvidas. O texto é breve, sem ramificações narrativas, descartando esta alternativa.

D) Novela: Apesar de intermediária entre conto e romance, também exige maior complexidade e continuidade narrativa. O texto não apresenta essas características.

Dica: Em provas, atente para o enfoque do texto: se ele for breve, abordar situações comuns e apresentar tom subjetivo, reflexivo e cotidiano, trata-se provavelmente de uma crônica.

Resumo final: A alternativa correta é E) crônica, pois o texto possui exatamente as características que definem esse gênero.

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