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Ano: 2021
Banca:
Instituto Consulplan
Órgão:
SEED-PR
Prova:
Instituto Consulplan - 2021 - SEED-PR - Professor - Área de Conhecimento: Língua Portuguesa |
Q4382826
Não definido
Texto associado
O texto contextualiza a questão. Leia-o atentamente.
A diversidade valorizada
Valorizar a realidade do outro é o movimento mais
revolucionário dos nossos tempos.
A humanidade, como um todo, às vezes parece um ébrio
que avança cambaleante, que titubeia à esquerda, deambula à
direta, retrocede meio passo e, aos poucos, avança imprecisamente. Talvez se assemelhe melhor a um infante, quiçá a um
bebê, que, inseguro, busca firmar seus passos e a quem a queda
se apresenta não como mandatária, mas como experiência.
Todos nós, relutantes e amedrontados, transformamos a
nossa realidade num lar, onde nos aconchegamos, repousamos
e alardeamos ser este o nosso espaço possível, o único seguro.
Fora deste “nosso lar” nada existe – e, se existir, é perigoso, é
uma ameaça que precisa ser eliminada.
Mas será que para trombetear que nosso lar é acolhedor
precisamos exorcizar os lares alheios? Quando guturalmente
explicitamos que nosso espaço é possível, estamos negando
que outros existam? Cada pessoa se depara com algo que
gostaria de negar, precisa ver o que não gostaria de reconhecer
e é colocada próxima daquilo de que gostaria de manter
distância: o outro, a outra.
O “outro” impõe sua existência, está às vistas, circula na
proximidade. Como vamos lidar com isso? Ou, ainda, como
estamos percebendo este outro, esta outra? A realidade do
outro e da outra não é mono, mas polissêmica; não é rotina, mas
festejo; não é única, mas diversa. Assim, a diversidade se introduz como hóspede inoportuna, com galhardia imprópria. Desfila
a si mesma, desarticulando nossa insegura e medrosa rotina.
O momento exige que o infante ébrio firme seus passos,
encare o percurso, sorria desafiante e acalente um sonho. Deve-
-se festejar a diversidade, não apenas suportar sua presença;
torná-la laudável, não um infortúnio imposto; anunciá-la abertamente, não a tratando como hóspede indesejada. Para isso,
uma transformação se impõe e é preciso pôr em prática um
vasto e generoso escambo, ir para a vida disposto a trocar o
resultado pela paz interior, o falo pelo afeto, o linear pelo cíclico,
a lógica pelo fenômeno, a colheita pelo plantio, a certeza pela
dúvida, a razão pela vivência.
A diversidade elogiada se revela sorrateira e cativante nas
suas múltiplas dobras, num convite claro para que a humanidade visualize a si mesma, encare-se como totalidade e não
exclua de si a sua essência: o diverso. Negar a diversidade é
impossível, por isso é que pessoas e povos com projetos de
dominação forjam teorias – com alcunha de ciência ou nome de
algum deus – que fazem classificações de “superiores” e
“inferiores”. Desta forma, o modo de lidar com a diversidade se
torna sutil e perverso. Seria, por acaso, tão difícil perceber que
dizer que o “outro” é inferior carrega a lógica da dominação?
O relato sobre a diversidade laudável se torna extenso, mas
também pode ser sucintamente apresentado, desde que sejam
abandonados esquemas mentais de negação do(a) outro(a). Se
esse passo for dado, a diversidade surge resplandecente, como
joia desejada, que contabiliza para o tesouro da humanidade.
Invertendo esse sonho, a pobreza se torna nosso legado,
pois, quando uma cultura desaparece, junto some uma maneira
de interpretar a realidade; quando um idioma para de ser
falado, cessa junto um jeito de expressar a palavra “mundo”;
quando uma religião finda, empobrecem as sendas da humanidade na busca pelo sagrado; quando uma etnia é ocultada, é o
olhar de todos que fica embaçado; quando uma expressão de
gênero é perseguida, a humanidade revela sua própria infelicidade. Por fim, quando um humano é discriminado por aqueles
que detêm o poder, todos correm riscos, pois o poder muda de
mãos, mas a sua lógica, nunca.
Passamos de uma pauta pessoal para uma pauta política e
coletiva, porque, quando se acalenta que um simples fragmento
de diversidade possa ser excluído, dá-se a dica e a permissão
para nossa própria exclusão. Sim, negar a diversidade é a mais
sutil e astuta agenda dos ditadores de plantão. Os regimes
autoritários não podem permitir que o diverso exista, já que
cultuam a si mesmos. Eles precisam suplantar o outro, para
fazer reluzir a própria egolatria. Preferem o espelho à janela e,
mesmo com olhos abertos, só enxergam a própria face.
Valorizar a diversidade é o movimento mais revolucionário
dos nossos tempos, o mais democrático dos impulsos, a
empreitada mais transformadora. Valorizar a diversidade é
raciocinar a partir da premissa de que todos contam. O pão
acumulado em uma mesa e que falta na mesa do outro é
injusto; o religioso que se apresenta como o único representante do sagrado é mentiroso; o modelo de família trazido como
o único verdadeiro é falso; o líder que se apregoa como a única
opção é um usurpador; a etnia que se infla de superior é insegura; o padrão de afeto que precisa se impor é decepcionante.
Que a diversidade ecoe em nossos ouvidos como a música
predileta. Que ela ocupe nossos pensamentos como nossos
melhores sonhos. E que, vigilantes, possamos escrutinar nosso
cotidiano, para que nunca, nem no menor aceno, possamos
afastá-la. Em última instância, a diversidade é o reflexo da vida,
que misteriosamente desliza à nossa frente em muitas formas,
desvelando seu mistério.
(SANCHES, Mário Antonio. A diversidade valorizada. O Estado de São
Paulo. Em: 18/09/2021. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/
noticias/espaco-aberto,a-diversidade-valorizada,70003842411.)
“Todos nós, relutantes e amedrontados, transformamos a
nossa realidade num lar, onde nos aconchegamos, repousamos e alardeamos ser este o nosso espaço possível, o único
seguro. Fora deste ‘nosso lar’ nada existe – e, se existir, é
perigoso, é uma ameaça que precisa ser eliminada.” (2º§)Que
passagem transcrita CONTRARIA essa afirmativa feita pelo
autor no texto?