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Q719122 Português
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(Do livro "Eu sei, mas não devia", Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1996, p.9). 
Todo texto utiliza-se de recursos para enfatizar a intenção (ou intenções) de quem o escreve. Portanto, quanto à “função de linguagem” predominante nesse texto, temos:
Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Funções da linguagem. Essa questão exige do candidato a interpretação textual associada ao reconhecimento da predominância de uma função discursiva, conceito presente nas principais gramáticas do português (Cunha & Cintra, Bechara).

Regra central: As funções da linguagem explicam qual fator da comunicação está em destaque. A função emotiva (ou expressiva) centra-se no emissor, marcando a subjetividade e as emoções de quem fala ou escreve. Pode-se identificar por:

  • Uso de primeira pessoa
  • Expressão de sentimentos, opiniões e impressões
  • Linguagem subjetiva, confessional ou reflexiva

Exemplo do texto: "Eu sei, mas não devia." e "A gente se acostuma..." – evidenciam a experiência particular e o olhar sensível da autora.

Justificativa da alternativa correta (D – Função emotiva ou expressiva): O texto de Marina Colasanti está fundamentado em emoções e reflexões do eu lírico. Segundo Bechara, “a função emotiva revela, sobretudo, a atitude do emissor, destacando a expressão da individualidade”. Aqui, a autora compartilha sentimentos, angústias e percepções pessoais diante da rotina e da acomodação humana.

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Função metalinguística: Não trata do código da língua nem explica a linguagem por meio da linguagem.
  • B) Função apelativa: Embora haja intenção de provocar reflexão, o foco não está em convencer, mas em manifestar emoções e inquietações.
  • C) Função referencial: Essa função transmite informações objetivas; o texto é subjetivo e não busca apenas informar.
  • E) Função poética: Apesar da preocupação estética, a predominância recai sobre a manifestação de sentimentos, não sobre o foco formal da mensagem.

Estratégia para concursos: Atente-se ao foco do texto (quem fala, sentimentos, opiniões) para diferenciar a função emotiva da apelativa ou referencial. Evite a “pegadinha” de confundir subjetividade (emotiva) com estética (poética).

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Comentários

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1.  Emotiva - Expressiva - Emissor:

Evidência à primeira pessoa (enunciador). A intenção é destacar o emissor (ou falante, ou locutor).

 

Tem por finalidade transmitir emoções. Usa sinais de exclamação, de interrogação e reticências

 

Tem por finalidade transmitir emoções. Usa sinais de exclamação, de interrogação e reticências.

 

As principais marcas são verbos e pronomes na 1º pessoa, a adjetivação e a escolha do vocabulário, sobretudo dos advérbios.

 

 

Passa para o texto marcas de atitudes pessoais como emoções, opiniões, avaliações. Na função expressiva, o emissor ou destinador é o produtor da mensagem. O produtor mostra que está presente no texto mostrando aos olhos de todos os seus pensamentos.

O.O não acreditei que a resposta era letra D mesmo 

Função poética

# Uso de metáfora

# Brinca com as palavras

# Gera a ideia de mundo novo

# Sempre em forma de mensagem

 

''a gente se acostuma...'' esse termo é como se fosse um lamento para o emissor, ou seja, sendo uma emoção.

A ideia expressa centra-se no “Eu” (1ª pessoa), revelando sua emoção ou sua opinião.

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