“Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios ...

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TEXTO: ESSENCIALISMO GENÉTICO

A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo

Natalia Pasternak


Imagine que você tem olhos castanhos e ambos os seus pais têm olhos claros, azuis ou verdes. Quantas vezes você já teria ouvido que não pode ser filho biológico do casal? A crença de que cor dos olhos é uma herança determinada por um único gene, com alelo dominante (castanho) e alelo recessivo (azul ou verde), vem da maneira simplificada como abordamos genética no ensino fundamental e médio. Quem não se lembra do “Aa” e das tabelas de quadradinhos?


Alguns autores estudam o ensino da genética mendeliana e sua influência na aceitação do chamado essencialismo, ou determinismo, genético. Essa ideia baseia-se no entendimento – enganoso – de que características fisiológicas e comportamentos são produtos lineares de um único gene. Ou seja, haveria um gene para cada característica: o gene da inteligência, por exemplo. O problema é que este tipo de herança é muito raro. A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo. Por isso é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros.


O determinismo genético também desconsidera interações com o ambiente. Duas plantas da mesma espécie com o mesmo genoma podem ter alturas diferentes, por exemplo, dependendo do tipo de solo, quantidade de luz e nutrientes.


E por que isto é um problema? Porque pode induzir a um “fatalismo” e crenças de que características como inteligência, aptidões, comportamentos e até mesmo suscetibilidade para doenças, são inatas, fixas e imutáveis. Estudos mostraram que o entendimento correto de como funciona a herança genética reduz a crença em ideias baseadas em essencialismo genético, como racismo e eugenia. Os autores de uma pesquisa mediram conhecimento básico de genética, nível de crença em determinismo genético, crenças em dominação social, e crenças em eugenia.


Exemplos de afirmações utilizadas para fazer essas medições incluem “alcoolismo é primariamente causado por fatores genéticos”, “criminosos não deveriam ser autorizados a se reproduzir e deixar descendentes”, e “esterilizar pessoas com características indesejadas pode melhorar gerações futuras”. Os resultados mostraram que quanto maior o entendimento de genética, menor a crença em determinismo, essencialismo, racismo e dominação social de um grupo sobre outro.


A boa notícia é que é fácil corrigir o essencialismo. Pesquisadores conduziram uma série de experimentos controlados com crianças e adolescentes, alterando a maneira como a hereditariedade era ensinada na escola. Perceberam que nos grupos onde a genética era ensinada do modo tradicional, os alunos desenvolviam crenças deterministas, e nos grupos onde o tema era introduzido com estudos sobre diferenças e semelhanças genéticas entre populações, as crenças eram reduzidas. Os autores ainda testaram uma intervenção para corrigir as crenças deterministas, e concluíram que basta uma série de cinco aulas mostrando a baixa diversidade genética entre indivíduos, e que existe maior diversidade entre grupos do mesmo continente do que comparando continentes diferentes.


Gregor Mendel, o monge católico do século 19 cujos experimentos com ervilhas deram origem ao modelo simplificado “Aa”, deve ser celebrado e ensinado nas escolas. Mas a genética mendeliana precisa ser ensinada como parte de um contexto maior, e não como a base de toda a genética e da hereditariedade.


Fonte: https://oglobo.globo.com/blogs/a-hora-da ciencia/post/2025/07/essencialismo-genetico.ghtml. Acesso em 12/02/2026. Fragmento
“Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo. Por isso é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros” (2º parágrafo). Nesse trecho, o conectivo em destaque estabelece, entre as ideias, relação de: 
Alternativas

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho “A maioria das características humanas é poligênica, depende da interação de vários genes. Cor dos olhos, ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio, é um bom exemplo. Por isso é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros.”, a expressão “Por isso” atua como operador argumentativo que retoma o que foi dito antes e introduz a conclusão daí decorrente, em valor equivalente a “logo”, “portanto” ou “assim”.

Tema central: valor semântico do conectivo
Análise das alternativas
A
Errada
Finalidade indicaria objetivo, propósito, valor do tipo “para isso” ou “com a finalidade de”. Não é o caso. “Por isso” não expressa algo pretendido; expressa uma decorrência lógica do que foi afirmado antes.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o trecho anterior apresenta a explicação de que a cor dos olhos é um exemplo de característica poligênica. Em seguida, “Por isso” introduz a conclusão derivada dessa explicação: é falso dizer que uma criança de olhos castanhos não pode ter pais de olhos claros. A relação entre as ideias é, portanto, de conclusão.
C
Errada
Concessão pressupõe sentido de contraste com quebra de expectativa, como em estruturas equivalentes a “embora”, “ainda que”, “mesmo que”. No trecho perguntado, “Por isso” não opõe ideias; ele encadeia a conclusão extraída das informações anteriores. A possível confusão vem de “ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio”, mas esse contraste pertence ao segmento intercalado, não ao conectivo cobrado.
D
Errada
Comparação exigiria aproximação explícita entre dois termos, situações ou qualidades. O trecho não compara; ele parte de uma explicação científica para tirar uma inferência. A menção a olhos castanhos e olhos claros compõe o conteúdo da conclusão, não uma relação comparativa.
Pegadinha da questão
A banca explora a presença de “ao contrário do que sugerem os exercícios do ensino médio”, que pode atrair o candidato para contraste ou concessão. Mas a pergunta recai sobre “Por isso”, cujo valor no encadeamento do trecho é conclusivo.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique se o conectivo introduz premissa, oposição, finalidade ou inferência derivada do que veio antes.
  • Separe o valor do conectivo cobrado de outros trechos do período que possam trazer contraste ou explicação paralela.
  • Quando o segmento posterior puder ser lido como “logo”, “portanto” ou “assim”, a relação tende a ser de conclusão.

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Gabarito B

"Por isso" dá a ideia de conclusão

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