Acho avião uma criatura muito
simpática - me parece um golfinho metálico, de
óculos escuros, com enormes nadadeiras e uma
barbatana retardatária, lá na cauda.
Tampouco tenho medo de voar.
Meu medo é justamente que, em algum
momento entre a decolagem e o pouso, ele não
voe.
Toda véspera de voo, vem esse
sobressalto: e se...
Sim, já trabalhei isso na análise. Era
culpa. A queda seria a punição por eu estar me
divertindo (mesmo que a viagem seja a
trabalho), gastando dinheiro à toa (mesmo que
a passagem seja paga pelo patrão, pelo cliente
ou cortesia da companhia aérea).
Meu id e meu ego entenderam
perfeitamente e se puseram de acordo. О
problema sempre foi o superego, que
invariavelmente pedia para ir ao banheiro
quando esse assunto vinha à tona - e se
escafedia no meio da sessão.
Tirando uma vez, num voo da Pluna
para Madri, em que meu assento não existia (e
uma comissária teve que ir em pé para que eu
pudesse me sentar) e um aguaceiro (certamente
condensação de ar condicionado) desabou
sobre minha cabeça, e me fez cruzar o Atlântico
mais encharcado do que se tivesse ido a nado.
(...)
Tirando isso -e alguns outros
perrengues de menor porte - nunca tive motivos
para ter medo de fazer check-in, afivelar os
cintos, etc. Mas não deixo de ter vontade de
fazer algum comentário que, caso ocorra o pior,
possa ser interpretado como "Nossa, era um
pressentimento!". (...)
Se na hora em que você estiver lendo
este texto (...) eu já tiver desembarcado em Congonhas, são e salvo, terá sido um texto
como qualquer outro. Caso contrário, não
faltará quem diga "Gente, parece que ele
sabia!".
Não, não sabia. A gente quase que nada
sabe - mas desconfia de muita coisa, como
escreveu Guimarães Rosa.