No excerto do texto “[...] não queria ouvir música ao vivo,...
SOBRE CAFÉS E LIVROS
O que é que eu fui fazer na livraria? Eu estava procurando um livro. Como era desses códices que a gente tem vontade de rabiscar, anotar, comentar, marcar, resolvi ter o livro, bonito, impresso, original. Não encontrei em lugar nenhum, mas o que importa é o percurso desta minha busca.
Passei por duas livrarias dessas enormes, com escadarias, segundo andar, rede de lojas por toda a cidade. Também passei por duas livrarias médias, dessas que têm tradição e são cercadas de lendas urbanas. As outras quatro eram livrarias cult, dessas que servem café e bolos. Pedi um capuchino e até fiquei um tempo ouvindo a moça que cantava ao vivo num palco. Mas então me lembrei de que tinha uma meta: procurar um livro e fui em busca dele. Mexi e remexi em todas as prateleiras, mapeei a loja, fui nas estantes que ficavam sob a placa da categoria em que eu imaginava encontrar meu livrinho. Observei, me aproximei, espirrei a poeira dos livros guardados, chamei o vendedor, pedi informação à menina do caixa e saí de lá com as mãos abanando.
Em Belo Horizonte, e em vários outros lugares, você pode ir a uma livraria sem ter a menor vontade de comprar ou ver um livro. Impressionante a limpeza do balcão, a voz da cantora, a estante de periódicos, o uniforme dos garçons, a agilidade do caixa, o cheirinho do café. Mas na livraria, o vendedor não sabia me informar sobre livros, e as estantes estavam empoeiradas em completa desorganização. Era impossível inferir, sem ajuda urgentíssima, o critério de disposição daquelas obras todas. No meio dos dicionários de línguas, estava o dicionário de palavrões do Glauco Mattoso. No meio dos livros de botânica, estava o Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque. O livro que eu procurava devia estar em algum lugar daquele universo indistinto. Talvez na prateleira da cozinha, junto com as colheres de pau.
O que eu procuro quando vou a uma livraria? Em geral, procuro por um livro. Também posso chegar à loja procurando por um tema, sem ter a ideia exata de que livro levar. Eu sinto a necessidade de encontrar ajuda numa espécie de consumidor, alguém que saiba sobre o objeto que vende. Não um vendedor treinado para me dizer “bom dia”. Daí que faço as perguntas e ele deve me responder com alguma dose de precisão, além da simpatia. Também pode ser que ele me dê uma sugestão, o que será delicioso. E se a sugestão for bem sucedida, serei fiel à livraria.Mas parece que, nesta cidade, as livrarias já não têm mais a missão de vender livros. Têm tantas outras que essa se confunde com o pó do capuchino industrializado. Estão lá garçons que vendem livros e cantoras que interpretam poetas que não se encontram mais nas prateleiras. A menina do caixa nunca lê as capas das obras que vende. Atrás dela está pendurado um painel com uma cena de Dom Quixote. Ela pensa que é o esboço de um desenho animado Disney. E então eu sei que não encontrarei o livro que eu quero porque ele deve estar perdido na desordem da loja. Não poderei contar com o vendedor porque ele também não sabe do que eu estou falando. E não poderei fazer outra coisa ali que não seja degustar um café e ler sobre vinhos chilenos com nomes interessantes.
Eu não fui com a intenção de conhecer vinhos andinos. Nem cheguei lá pensando em paquerar. Também não queria ouvir música ao vivo, já que nem tinha dinheiro para pagar o couvert artístico. Não imaginava que seria atendida por um garçom e não queria que o vendedor ficasse constrangido em me dizer que nunca ouvira falar daquele livro antes. Eu queria uma obra que infesta as referências dos meus pares. E onde será que eles a encontram?
Depois de percorrer a cidade em busca do meu livro e não encontrar, entrei na internet e achei. Pedi, paguei frete e o terei em casa sem pedir ao garçom e sem sentir cheiro de café. Não há nada de mal em tomar capuchino na livraria. O que deve estar fora do lugar é a ênfase. Se eu entrasse numa cafeteria e perguntasse por um livro, talvez o garçom se desse conta de que eu é que estava no lugar errado.
RIBEIRO, Ana Elisa. Meus Segredos com Capitu. 2 ed.
Natal: Jovens Escribas, 2015. (adaptado)
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Tema central da questão: Interpretação de texto e identificação de conjunções subordinativas causais na norma-padrão.
No trecho: “não queria ouvir música ao vivo, já que nem tinha dinheiro para pagar o couvert artístico”, o foco é analisar o papel da conjunção subordinativa “já que”. O objetivo é saber qual relação sintática (sentido) ela estabelece entre as orações.
Justificativa da alternativa correta (E – Causa):
“Já que” é uma conjunção subordinativa causal. Segundo a norma-padrão (vide Evanildo Bechara, “Moderna Gramática Portuguesa”), conjunções causais introduzem orações que apresentam o motivo ou razão do fato expresso na oração principal. Neste caso, a razão para a ação de não querer ouvir música ao vivo é não ter dinheiro para pagar o couvert. A estrutura pode ser entendida como: “Eu não queria ouvir, porque nem tinha dinheiro…”
Análise das alternativas incorretas:
A) Conclusão: Não há resultado ou desfecho introduzido por “já que”. Conectivos como “portanto” são conclusivos, mas não é o caso.
B) Conformidade: Conjunções conformativas (ex.: “conforme”, “segundo”) indicam acordo com algo, não causa.
C) Condição: Conjunções condicionais (ex.: “se”, “caso”) expressam possibilidade ou dependência, o que não ocorre no exemplo.
D) Concessão: Conjunção concessiva (ex.: “embora”, “ainda que”) indicam contraste ou oposição, o que não aparece aqui.
Elementos do texto importantes: A conjunção “já que” introduz uma oração que responde à pergunta por que alguém não queria ouvir música ao vivo. Isso é causalidade.
Dica para provas: Sempre que encontrar “já que”, “visto que”, “uma vez que”, lembre-se de que normalmente apresentam causa e verifique se a oração instaurada responde a pergunta “por quê?” em relação à principal.
Portanto, a alternativa correta é: E) Causa
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Comentários
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JÁ QUE, VISTO QUE, UMA VEZ QUE, PORQUE, COMO, PORQUANTO = Conj. CAUSAL.
Também, lendo dessa forma: já que nem tinha dinheiro para pagar o couvert artístico ( causa )--- então: não queria ouvir música ao vivo ( consequência).
Caso não lembre das conjunções causais/consecutivas, tente ver o que 'acontece primeiro', o resto é consequência. : 1º não tenho dinheiro ( causa) 2º não quero ouvir música ao vivo. ( consequência).
Já que nem tinha dinheiro para pagar o couvert artístico, não queria ouvir música ao vivo.
GAB. E
Invertendo...
já que nem tinha dinheiro para pagar o couvert artístico não queria ouvir música ao vivo.
CAUSAL X CONSECUTIVA
Ex: Falou tanto / que ficou muito rouco.
---> A conjunção acompanha a consequência. Portanto, é consecutiva!
Ex.: Já que falou tanto / ficou muito rouco.
---> A conjunção acompanha a consequência. Portanto, é causal.
Erros me avisem!
O FATO DE nao ter dinheiro para pagar o couvert, FEZ COM QUE não queria ouvir música ao vivo.
GABARITO: E
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