No trecho “engendrando disparidades sociais baseadas, princ...

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Q4039266 Português
Leia o texto a seguir para responder à questão.


    Para a filósofa estadunidense Nancy Fraser, o conceito de justiça social funde-se em duas frentes, sendo uma delas a do reconhecimento, referente à existência e à visibilidade de um determinado grupo ou indivíduo perante o poder público e a sociedade. Nesse viés, a fim do efetivo asseguramento da cidadania de seus indivíduos, o corpo estatal exige a materialização do existir de seus cidadãos mediante documentos oficiais, os quais proporcionam o acesso a prerrogativas e serviços que lhes cabem aos indivíduos registrados. No entanto, não raras são as ocasiões em que não há tais registros, o que levanta debates acerca da importância dos documentos civis e da devida regularização dos cidadãos à garantia de acesso à cidadania plena e, portanto, à visibilidade, no Brasil, embasados, sobretudo, na oportunidade de indivíduos alijados à sociedade ascenderem de condições de vida, somada à possibilidade de estes construírem seu verdadeiro “eu”. Tendo isso em vista, o Estado deve agir visando à facilitação e à democratização de tal processo civil.

    De início, é notório o caráter indispensável do registro civil na promoção da cidadania, em especial, de indivíduos à margem da sociedade e da atuação do poder público, possibilitando sua ascensão social. Segundo o geógrafo Milton Santos, o Brasil vive um cenário de cidadanias mutiladas, em que, embora a Constituição preveja, de forma universal e indistinta, o acesso a prerrogativas, estas não são efetivamente consubstanciadas na prática, engendrando disparidades sociais baseadas, principalmente, no poder econômico dos membros da sociedade. Nesse contexto, pessoas em uma posição inferior de pirâmide social têm seus direitos renegados, em uma estrutura baseada no capital, restando ao Estado o dever de, ainda que parcialmente, complementar a iniciativa privada na oferta de serviços e de prerrogativas mercantilizadas, em busca de uma conjuntura de maior equidade social. Dessa forma, o registro civil, ao estabelecer a conexão indivíduo-poder público, permite que este atue de forma localizada e eficiente sobre comunidades ou cidadãos, com o fito de promover sua ascensão social, tendo o documento papel primordial nesse intermédio.

   Além disso, já em um âmbito existencialista, a regularização do indivíduo, ao materializar sua existência, fornece um importante amparo na síntese de seu verdadeiro “eu”. Conforme o filósofo Jean-Paul Sartre, o homem é dotado de liberdade para construir sua essência, mediante tomadas de decisões, porém apenas quando sobre ela precede a existência humana. Nessa perspectiva, o fato de existir é imprescindível para que o cidadão, em seu íntimo, seja capaz de, ao longo de sua vivência, sintetizar quem ele realmente é, com toda a liberdade intrínseca a sua existência. Desse modo, o registro civil de uma família, por exemplo, permitirá que esta, sob um regime de supervisão e auxílio do Estado, seja atriz de sua própria história, definindo a essência de cada um de seus membros e sintetizando, de forma ativa, seu legado a gerações futuras, tornando-se mais visíveis a elas, ao corpo estatal e à sociedade como um todo, o que ressalta sua cidadania.

   Portanto, em vista dos benefícios inerentes ao registro civil e sua facilitação, no que se refere à cidadania, faz-se necessário que o Estado, através de parcerias entre as esferas federal, estadual e municipal, democratize a retirada de documentos cidadãos, por meio da construção de centros de registro e cartórios em zonas periféricas ou interioranas, os quais disponibilizem atendimento integral e direcionado a indivíduos de baixa renda que não tiveram a oportunidade de reivindicar seus documentos. A finalidade de tal ação é ampliar e garantir o acesso à cidadania plena no Brasil, já que esta só pode ser integralmente alcançada, na maioria dos casos, com, no mínimo, a certidão de nascimento, justamente por informar o poder público a respeito de sua existência como cidadão. Somente assim, poder-se-á construir um cenário de justiça social e de reconhecimento igualitário dos indivíduos perante o corpo social e estatal, universalizando prerrogativas e fazendo da sociedade uma instituição harmoniosa e, em seu conjunto, cidadã.


Fonte: arquivo pessoal do elaborador
No trecho “engendrando disparidades sociais baseadas, principalmente, no poder econômico dos membros da sociedade”, retirado do segundo parágrafo do texto, o termo em destaque exerce função sintática de: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: B

Fundamento decisivo: No trecho “engendrando disparidades sociais baseadas, principalmente, no poder econômico dos membros da sociedade”, o termo preposicionado “no poder econômico dos membros da sociedade” vincula-se ao nome/adjetivo “baseadas” e, pela leitura normativa cobrada pela banca para a construção “baseado em”, completa-lhe o sentido, o que sustenta o gabarito B.

Tema central: complemento nominal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque objeto indireto é complemento de verbo com preposição. Aqui, o termo destacado não completa o verbo “engendrando”; ele completa “baseadas”. O critério decisivo é a distinção entre complemento verbal e complemento de nome/adjetivo.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o trecho destacado completa o sentido de “baseadas”, indicando o fundamento das “disparidades sociais”: elas estão “baseadas no poder econômico dos membros da sociedade”. O vínculo sintático imediato não é com o verbo “engendrando”, mas com o segmento nominal/adjetival “disparidades sociais baseadas”. Como se trata de complemento preposicionado exigido pela construção “baseado em”, a função é complemento nominal.
C
Errada
Está errada porque adjunto adnominal apenas caracteriza ou determina um substantivo. No trecho, “no poder econômico dos membros da sociedade” não traz simples caracterização de “disparidades sociais”; ele completa a noção relacional de “baseadas”, informando em que elas se fundam.
D
Errada
Está errada porque o segmento não exprime circunstância do processo verbal principal, como tempo, modo, causa ou lugar. Ele indica o fundamento das “disparidades sociais” qualificadas como “baseadas”, portanto tem valor completivo nominal, não adverbial.
E
Errada
Está errada porque objeto direto é complemento verbal sem preposição e ligado diretamente a verbo transitivo direto. O trecho destacado é preposicionado e não se vincula diretamente ao verbo “engendrando”, mas a “baseadas”.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar qualquer termo preposicionado como objeto indireto e ignorar que “baseadas” atrai complemento pela construção “baseado em”. A presença de “principalmente” no meio do trecho ainda pode induzir leitura indevida de adjunto adverbial.
Dica para questões semelhantes
  • Antes de classificar o termo preposicionado, identifique a que palavra ele se liga imediatamente: ao verbo ou a um nome/adjetivo.
  • Se a estrutura for do tipo “baseado em”, “ligado a”, “relativo a”, verifique se o termo preposicionado completa a ideia do nome ou particípio.
  • Não classifique como objeto indireto apenas porque há preposição; objeto indireto exige complemento de verbo.
  • Separe a função do bloco inteiro de sua estrutura interna: o fato de haver determinantes dentro do sintagma não muda sua função em relação ao termo que ele completa.

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Comentários

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entre Adjunto adnominal e complemento nominal :

Se completou o sentido de um adjetivo, só pode ser CN.

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