"Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom per...

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Q3509151 Português

Leia o texto a seguir para responder à questão.


Dinheiro na mão é vendaval

Notas e moedas sumiram de nossas vidas - e ninguém percebeu.


Walcyr Carrasco


    Outro dia eu resolvi ir a um restaurante no Rio de Janeiro, localizado em um bairro da Zona Sul, tradicional e elegante. Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom perfume, peguei a carteira com meus cartões, apesar de usar mais os virtuais hoje em dia. Empoderado e bem acompanhado, entrei no local, certo de que faria uma deliciosa refeição. Pedi uma mesa para dois. Quando sentamos, o garçom nos trouxe o menu. E perguntou: "Já conhecem o restaurante?”. Respondi: “Não, mas já há algum tempo queria conhecer”. Ele disse : “Só quero adiantar que não trabalhamos com cartões." Sorri e disse: "Tudo bem, eu faço um Pix." AÍ ele frisou: "Só aceitamos pagamento em cash." Meu mundo desmoronou. Ele nos acompanhou até a saída. Logo ao lado havia outro restaurante. Entramos. A mesma cena se repetiu. Surpreso, soube que os dois eram do mesmo dono. Questionei como isso era possível nos dias atuais. Há muito tempo não passava por uma situação assim. O segundo garçom explicou que os dois restaurantes eram frequentados por clientes antigos e fiéis, que já conheciam as normas e sempre estavam preparados. Realmente, observei e o restaurante estava longe de parecer vazio. Corremos para um food truck, e nos resolvemos.

    Refleti que de fato eu utilizo cada vez menos dinheiro em papel ou moeda, assim como todos os meus amigos e conhecidos. Antes eu sempre tinha um trocado. Separava o dinheiro do restaurante, do taxi, da gorjeta. Sempre tinha uma bolsinha para as moedas. Hoje, basicamente, eu preciso do meu celular. Carro é por aplicativo, reservas on-line, restaurantes pagos por aproximação do celular. E a gorjeta? 0 exército de profissionais que dependia de gorjetas dançou, porque ninguém mais anda com dinheiro vivo. A não ser que se dê a gorjeta também no cartão. Mas o mundo avançou tanto na seara digital que, á pouco tempo, na entrada do Aeroporto Santos Dumont, um senhor me estendeu a mão pedindo uma ajuda. Respondi que não tinha dinheiro em mãos. "Aceito Pix", ele respondeu. Para um amigo que queria um queijo coalho na Praia de Ipanema e estava desprevenido, a vendedora propôs, mostrando um cartão:

"Aponta seu celular pra esse QR code que o pagamento vai cair direto na minha conta.” Minha reflexologista anda com uma maquininha de cobrança no próprio celular. Mas dinheiro virou algo simbólico. Obsoleto. Mesmo os grandes bancos se resolvem com cifras digitais. Imagine se todos os correntistas de qualquer banco exigirem, no mesmo dia, retirar tudo em dinheiro. O banco entra em colapso.

    As cédulas coloridas, as moedas desenhadas, o cheirinho da grana, tudo isso tornou-se raro. Uma mala cheia de dinheiro vivo hoje em dia é suspeita. No mínimo, vão achar que é propina de politico. Ou algum pagamento questionável, que alguém recebe e não declara. Outro dia vi a clássica imagem de Tio Patinhas nadando em dinheiro. Hoje em dia seria impossível. O próprio Tio Patinhas teria seus apps. A canção de Paulinho da Viola intitulada Pecado Capital diz que dinheiro na mão é vendaval na vida de um sonhador. Foi premonitória. O vendaval já passou. Dinheiro na mão? Ninguém tem mais.



Publicado em VEJA de 1° de margo de 2024, edição nº 2882.

  

"Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom perfume, peguei a carteira com meus cartões, apesar de usar mais os virtuais hoje em dia." 1°§


As duas primeiras vírgulas nesse trecho separam:

Alternativas

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Tema central da questão: Pontuação – uso da vírgula para separar orações coordenadas assindéticas. Saber identificar esse tipo de oração é essencial para qualquer prova de concurso público.

Justificativa da alternativa correta:

No trecho analisado — “Vesti uma roupa especial para a ocasião, passei um bom perfume, peguei a carteira com meus cartões, apesar de usar mais os virtuais hoje em dia.” — temos três ações: “Vesti uma roupa especial para a ocasião”, “passei um bom perfume” e “peguei a carteira com meus cartões”. Todas essas ações são orações independentes, que não dependem uma da outra para terem sentido completo. Entre elas, não aparecem conjunções (e, mas, ou etc.), apenas vírgulas. Por isso, são chamadas de orações coordenadas assindéticas.

Regra gramatical central (conforme Bechara, Cunha & Cintra): “As orações coordenadas assindéticas são aquelas ligadas sem conjunção, separadas por vírgula. Elas se justapõem no período composto.”

Assim, a alternativa correta é a letra A: as duas primeiras vírgulas separam orações coordenadas assindéticas.

Análise das alternativas incorretas:

Letra B: Fala de “orações coordenadas sindéticas”, que são sempre ligadas por conjunção (ex: “Fiz isso e fui embora”). Não é o caso do trecho.
Letra C: Aponta “oração principal e subordinada”, mas não há relação de dependência entre as ações; são independentes.
Letra D: “Orações antecipadas” não existe como classificação normativa em português. Desconfie desse tipo de pegadinha em prova!

Dica de interpretação: Sempre observe se as ações estão ligadas por conjunção. Se não houver e cada oração tiver sentido por si, ponha foco na possibilidade de ser uma oração coordenada assindética.

Resumo prático: Separou por vírgula ações completas, sem conjunção? É oração coordenada assindética! Essa dica vale ouro nas provas!

Referência: Cunha & Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”; Bechara, “Moderna Gramática Portuguesa” — tópicos de sintaxe e pontuação.

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Comentários

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gab - a

orações independentes → coordenadas assindéticas.

As orações coordenadas assindéticas são caracterizadas pelo período composto justaposto, ou seja, não são ligadas através de nenhum conectivo.

As orações coordenadas sindéticas são caracterizadas pelo período composto ligado através de uma conjunção ou locução coordenativa.

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