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Q4156297 Português
Uma vela para Dario


   Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

   Dois ou trés passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

   Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espumа surgem no canto da boca.

   Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta a outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

   A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

    Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

    Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

   Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficam sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

     Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

     O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete A polícia decide chamar o rabecão.

     A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vé-lo, todo o ar de um defunto.

     Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

     Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver. Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

     Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.


(Adaptado de: TREVISAN, Dalton. 33 contos escolhidos. Rio de Janeiro: Record, 2005)
Simbolizam a morte de Dario todas as seguintes expressões:
Alternativas

Comentários

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boa

1. Gabarito Direto: Alternativa D

​2. O que a FCC quer de você:

Aqui a FCC abandona a gramática pura e mergulha na Compreensão e Interpretação de Textos Literários, especificamente na identificação de Linguagem Figurada (Simbolismo e Metáfora). A banca quer saber se você tem a sensibilidade de enxergar além do sentido literal (denotativo) das palavras. Ela quer que você encontre elementos no texto que, metaforicamente, representam o "apagar da vida" de Dario.

​3. Análise Cirúrgica da Correta (D):

​"o cachimbo apagou / a espuma sumiu / O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva"

Essa alternativa é uma obra-prima de interpretação poética. Dalton Trevisan usa elementos visuais para representar o fim da vida, fugindo do óbvio.

O cachimbo apagou: Ocorreu logo após ele cair. O fogo/calor representa a vida. O apagar do cachimbo é o primeiro sinal de que a "chama" vital de Dario está se esvaindo.

A espuma sumiu: A espuma na boca era o último sinal físico de luta orgânica, de agonia. Quando ela some, decreta-se o fim do movimento corporal, a morte física completa.

O toco de vela apaga-se: A vela acesa pelo menino representava a alma, a última vigília. A chuva apagando a vela no final do conto decreta o fim absoluto, o abandono total e o fechamento das cortinas para a vida de Dario. Tudo que remete a "apagar", "sumir", simboliza a morte.

​4. Raio-X das Incorretas (A Caça aos Erros):

A FCC tentou te confundir colocando trechos que realmente estão no texto e envolvem Dario, mas que relatam fatos literais, e não símbolos da morte.

​A - "carro negro investe a multidão / correria de uns duzentos curiosos / tropeçam no corpo de Dario"

​O Erro: Essas expressões representam a desordem e o desrespeito da cena. É a chegada brusca da polícia e o total descaso com o corpo no chão, não um símbolo poético da passagem da vida para a morte.

​B - "comendo e bebendo / gozam as delícias da noite / ocupam toda a rua e as calçadas"

​O Erro: Essas expressões simbolizam exatamente o oposto: a indiferença e a continuidade da vida alheia. A sociedade não para porque Dario está morrendo. Elas representam a insensibilidade urbana, o egoísmo, e não a morte dele.

​C - "guarda-chuva no braço esquerdo / diminui o passo até parar / encosta-se a uma parede"

​O Erro: Isso é pura descrição física e literal do início do mal-estar. É o "antes" da morte. Não há carga simbólica aqui, apenas a narração das ações motoras que o levaram ao chão.

​E - "abre a boca / move os lábios / não se ouve resposta"

​O Erro: Essas são as manifestações físicas do ataque/doença (um possível infarto ou AVC). Dario ainda está vivo aqui, tentando se comunicar. São os sintomas literais, não símbolos da morte consumada.

Que texto triste

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