🎯 Saiba o que estudar

Avançado com Treinador a partir de R$ 0,76/dia

No texto "Relação conturbada", Ian Salmar recorre a imagens...

Próximas questões
Com base no mesmo assunto
Q4114918 Português
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.

Relação conturbada

Embarco com muitas dúvidas. Não sei direito quem são essas pessoas que vou ver; sei seus nomes, de onde as conheço, e tenho uma imagem vaga de alguns deles, mas não sei como são nem como vou chegar até eles. Tudo que sei é que tenho oito horas e uma cadeira para pensar sobre isso.

Por oito horas o mundo se torna aquela poltrona. Você tenta se distrair, mas, no fim, é ela quem rouba sua atenção. Mesmo sentado, quase sem se mover, o corpo definha: a postura trava, o pescoço endurece, a espinha se desconcerta, os músculos enrijecem. De tempos em tempos você tenta esticar as pernas, preso num minúsculo cativeiro. Quem diria que ficar sentado cansa?

Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. Três horas de ônibus já bastam para vilanizar a cadeira: vibração constante, nervos amortecidos, a memória chacoalhada. Perguntas se sentam e empedram: Devia voltar mais vezes? Devia ligar? Devia mudar?

Desta vez o ônibus é diferente; a viagem, mais longa; a cadeira, mais abusada. Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família. Alguns caminhos são mais tortuosos que outros — e umas cadeiras, mais macias que outras. Mas não essa. Oito horas depois, me sinto carne moída. Não aguento mais ficar sentado.

Texto Adaptado

SALMAR, Ian. Relação conturbada. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1 512/1378/5380 . Acesso em: 16 nov. 2025.
No texto "Relação conturbada", Ian Salmar recorre a imagens sensoriais, metáforas e digressões existenciais para construir um discurso sobre a experiência de deslocamento físico e emocional. Considerando a totalidade do texto, a mensagem mais profunda que se depreende da narrativa diz respeito:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Fundamento decisivo: A questão pede a "mensagem mais profunda" da narrativa, então o critério decisivo é o sentido global construído pela progressão do texto. O trecho "Desde que comecei a faculdade, tenho me habituado à fadiga da viagem, o estar aqui, ser de lá, pertencer a lugar algum. [...] Estou indo para uma terra desconhecida ver gente que não vejo há uns seis, sete anos. Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família." mostra que o deslocamento físico é também sinal de afastamento temporal, estranhamento e pertencimento fragmentado; por isso, a alternativa correta é a que melhor sintetiza esse conflito.

Tema central: deslocamento e pertencimento
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa reduz o texto ao desgaste físico da viagem e à rotina universitária. Esse recorte é parcial, porque ignora trechos decisivos como "pertencer a lugar algum" e "Por pouco não falamos mais a mesma língua, mas ainda assim é família", que deslocam o sentido para o conflito identitário e afetivo. O desconforto corporal aparece, mas como suporte de uma reflexão mais profunda.
B
Errada
A eliminação ocorre por extrapolação indevida. O texto não afirma que o reencontro familiar é inevitável nem que vínculos de sangue "sempre se sobrepõem" às diferenças. A frase "mas ainda assim é família" indica permanência do laço, mas não autoriza essa generalização absoluta nem uma superação garantida da tensão emocional.
C
Errada
A alternativa transforma uma narrativa introspectiva em denúncia social do transporte público. O texto descreve incômodo físico e desconforto da cadeira, mas não desenvolve crítica estrutural ao sistema de transporte nem menciona "descaso com o bem-estar coletivo". O foco enunciativo permanece subjetivo, ligado ao estranhamento familiar e ao não pertencimento.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque articula os elementos que o texto efetivamente desenvolve: a viagem longa, o mal-estar corporal, a distância de anos sem contato e o reencontro com familiares já marcados pelo estranhamento. O narrador sugere um conflito entre passado e presente, visível em "pertencer a lugar algum", nas perguntas internas sobre voltar, ligar ou mudar, e na constatação de que quase não falam mais a mesma língua, embora o vínculo familiar permaneça.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de tomar a cadeira, o cansaço e a viagem como tema final do texto, quando esses elementos funcionam como imagem concreta de um conflito maior de pertencimento e de reencontro familiar tensionado.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado pedir o sentido mais profundo, procure o eixo que organiza o texto inteiro, não o detalhe mais repetido na superfície.
  • Separe tema aparente de tema central: aqui, a viagem e o desconforto corporal sustentam uma reflexão sobre afastamento e família.
  • Desconfie de alternativas que generalizam com palavras como "sempre" ou transformam sugestão do texto em certeza absoluta.
  • Em narrativas introspectivas, verifique se imagens concretas têm função apenas descritiva ou valor simbólico na construção do sentido global.

Clique para visualizar este gabarito

Visualize o gabarito desta questão clicando no botão abaixo