O ponto e vírgula corre risco de extinção: o simpático sinal de pontuação não foi usado nos últimos três
dias na Folha. Até os colchetes, mais afeitos à linguagem matemática, apareceram; ponto e vírgula que
é bom, nenhunzinho. Em contrapartida, abundam
os pontos de exclamação, enterrados no jornal pelo
bate-estaca de colunistas fanfarrões. Adicione-se ao
estrondo exclamativo o ponto final por extenso.
Escasseiam também as reticências, irônicas ou não;
o travessão, que abre uma fala ou completa o escrito; até os parênteses, que encapsulam outro sentido,
como faz Drummond em "(não cantarei o mar: que
ele se vingue de meu silêncio nesta concha)".
A pontuação é uma forma histórica. Os livros de Aristóteles, Platão e da Bíblia não tinham pontuação;
nem minúsculas; nem espaço entre as palavras! Deus
não escrevia certo por linhas tortas; escrevia embolado. O evangelho de João começava assim:
Foi com tijolos textuais como esse que se construiu
o saber ocidental. Porque, como disse Aristóteles,
OHOMEMÉUMANIMALPOLÍTICO. Gregários, os homens adotam convenções para se comunicar e mudar; mudar inclusive as convenções.
Foi o que fez Aldus Manutius, o editor veneziano que,
em fevereiro de 1494, inventou o ponto e vírgula.
Quem conta sua história é a professora Cecelia Watson, num livro delicioso, "Semicolon: Past, Present,
and Future of a Misunderstood Mark". Renascentista, Manutius queria popularizar o conhecimento.
Não havia padronização nem academias que policiassem o idioma. Era uma algazarra. Cada um pontuava
como lhe desse na telha.
Ao publicar "O Etna", ensaio em forma de diálogo sobre o vulcão ‒ de autoria do cardeal Pietro Bembo,
Manutius teve a divina ideia de captar a elocução do
distinto prelado. Criou o símbolo gráfico que marca
pausa maior que a da vírgula e menor que a do ponto. Com a obra pronta, vieram as regras: o ponto e
vírgula separa orações numa mesma frase; organiza listas; economiza conectivos (e) ou adversativas
(mas). Permaneceu perene, porém, o preceito básico
‒ registrar um silêncio específico, advindo da linguagem oral.
A engenhoca de Manutius ganhou o mundo. "MobyDick" tem 4.000 pontos e vírgulas, informa Cecelia
Watson, "um a cada 52 palavras". Machado de Assis, mais comedido e certeiro, mereceria o título de
mestre do ponto e vírgula na periferia do capitalismo. Henry James não escrevia sem ter ao lado da
escrivaninha um barril de pontos e vírgulas. Chegou
à inverter a ordem de importância entre pontuação
e palavras. Numa rara entrevista, ao Times, insistiu
para que o repórter anotasse sua "pontuação, bem
como as palavras".
A coisa mudou no século passado. Orwell, Barthelme, Chandler e tantos outros desprezaram o miniponto de Manutius. Vonnegut teve o topete de dizer
que pontos e vírgulas são "hermafroditas que não
representam absolutamente nada".
É meio assim no Brasil. Nos seis contos exímios que
Dalton Trevisan publicou e distribuiu no início do ano,
num livreto de 32 páginas, não há um único ponto
e vírgula. Dalton deixa que seus personagens e leitores deem uma paradinha onde bem entenderem.
Em contrapartida, o ponto e vírgula virou emoji, um
derivado dos signos de pontuação. Dois pontos e
vírgulas, com um travessão no meio, mostram uma
carinha derramando uma lágrima de cada olho ;–;.
Sozinho, representa uma piscada ;.
No ensaio "Sinais de Pontuação", Adorno prefigurou esse uso figurativo. O ponto de exclamação é
um dedo em riste ameaçador, disse. Os dois pontos
abrem a boca, "e coitado do escritor que não souber
saciá-los". "Marotas e satisfeitas", as aspas "lambem
os lábios".
Para Adorno, o ponto e vírgula parece "um bigode
caído" e passa "um sabor rústico". Como quase ninguém mais tem bigode, o ponto e vírgula, com tantos
serviços prestados, está à beira do desuso.
* Jornalista e escritor.
Folha de São Paulo, 27 de maio de 2022. Adaptado.
Considerando-se a leitura do texto, é correto afirmar que
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
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