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Ano: 2026
Banca:
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Órgão:
PREVCOM
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Q4305140
Português
Texto associado
Leia o texto do escritor angolano Pepetela para responder à questão:
Os balanços
Quero falar dos balanços que as instituições e os poderes políticos, desde governos a comissões de moradores de
prédios, fazem anualmente. Felizmente para nós, pobres
cidadãos que deles dependemos, os balanços são sempre
positivos. Por isso não compreendo como podemos ficar descontentes ou andar sempre macambúzios1, de bolsos furados.
Se tudo corre sempre bem e os balanços foram favoráveis, por que resmungamos com a carestia da vida, ou a opacidade do futuro? Nós, os pequenos, somos incuravelmente
pessimistas, caso para psiquiatria. Pois então não ouvimos
as notas positivas emanadas dos balanços? Até mesmo uma
comissão criada para um programa que desconseguiu de
resolver apresenta balanço positivo e abre champanhe na
hora de prestar contas (verbais, porque as monetárias ficam
só para alguns, os mesmos de sempre). Somos pessimistas
e ingratos, invejosos de os ver sempre a beber champanhe.
Desconfiamos dos que apresentam os balanços, os nossos
chefes bem-amados. É evidente, merecemos o inferno em
que vivemos, sem champanhe.
Divirto-me muito a ouvir ou ler o balanço feito a visitas
ao estrangeiro de membros do Governo ou delegações de
qualquer tipo, desportivas, diplomáticas ou culturais. As viagens são sempre positivas, alcançando resultados de que só
o futuro mostrará a magnitude. Como temos fraca memória,
no futuro nunca lembramos os termos de referência dessas
visitas positivas.
Ultimamente surgiram balanços em muitos jornais. Partindo do princípio que a década acabou agora (os matemáticos
que resolvam definitivamente essa maka2, pois parece que
é só para o ano), fez-se o balanço da década. Como esses
jornais se concentram no Norte (ou seguindo os interesses
do Norte), finalmente encontramos balanços negativos. Terrorismo, guerras, crises financeiras e econômicas constantes, desemprego em alta, suicídios de ricos (raríssimos, mas
servem de índice), tímidas prisões de uns poucos corruptos,
enfim, tudo desgraças. Para esses jornais, a primeira década
desse milênio é para esquecer.
Pois eu faço um balanço positivo. Por uma vez tinha de
ser. Nesta década gozamos finalmente de paz. E o país até
cresce muito, apesar dos disparates. Andamos na contramão, já é mania de ser diferente...
(Pepetela. Crónicas Maldispostas. 2015. Adaptado)
Vocabulário:
1macambúzios: tristonhos, taciturnos
2maka: cisão, desentendimento
Na passagem “... suicídios de ricos (raríssimos, mas
servem de índice) ...” (4º parágrafo), a flexão do adjetivo
destacado tem por objetivo