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Q3794726 Português

Leia o texto a seguir:


Texto 1


Estamos viciados em narrativas curtas



    Já começo esta coluna tentando criar alguma frase de impacto: vai que o leitor não aguenta ler o texto até o fim. Ler o parágrafo até o fim. Ler a linha até o fim. Também estou sofrendo do mesmo mal. Assim como milhões de outras pessoas, tive meu cérebro transformado pelo imediatismo dos posts, dos vídeos curtos, das frases de 140 caracteres.


    Se meu cérebro velho e tão pouco elástico quanto meus quadris se transformou, imagine aquelas cacholas dotadas de jovial plasticidade. Uma amiga que trabalha numa gravadora me contou que muitas crianças já não têm paciência para ouvir uma música inteira: para que ouvir tudo se podemos colocar direto no refrão?


    Tenho um afilhado que fica impaciente quando lhe conto alguma história. Percebi que sua capacidade de atenção dura o mesmo tempo que os recortes a que ele assiste no YouTube: no máximo 60 segundos. Depois, ele começa a se dispersar. Ou então a me pressionar pelo desenlace da narrativa.


    Esses dias, na companhia da minha filha e dos meus sobrinhos, dei play numa música do Velvet Underground, de dez minutos. Ficaram indignados: que música bizarra, que saco ter que esperar tudo isso. E eu: esperar o quê? Ouvir não seria o destino? Além disso, aonde vamos com tanta pressa? Claro que ninguém soube responder.


    Já escuto o dia em que eles vão querer ouvir duas músicas ao mesmo tempo. Exagero? Algo parecido já vem acontecendo com os vídeos, aqueles de tela dividida. Esses dias minha filha assistia a um tutorial de maquiagem na parte de cima da tela, enquanto, na parte de baixo, um homem fazia a demonstração de um aspirador que prometia acabar com ácaros. "E esse cara limpando o tapete?", lhe perguntei. "O que é que tem?", me devolveu de ombros, como se aturar dois vídeos ao mesmo tempo fosse a coisa mais natural do mundo.


    Quando a tela não se divide, o espectador se divide. A maioria das pessoas assiste a séries com o celular ao lado. Conscientes da dispersão causada pelo uso simultâneo de duas telas, os roteiristas já começam a escrever episódios mais didáticos, recapitulando aquilo que a mente multitarefa não foi capaz de guardar.


    E isso sem falar na duração da dramaturgia, cada vez mais curta. Na Argentina, visitei o Microteatro, que encena várias peças de 15 minutos numa mesma noite, uma em cada sala, permitindo ao público ver quatro ou cinco peças curtas numa visita – o local vive lotado.


    Não à toa, alguns amigos romancistas andam tensos: se eu escrever um livro muito longo, alguém vai ler? No incerto mercado editorial, ninguém pode dar garantia, mas eu sigo apostando no caráter subversivo da literatura como forma artística capaz de resistir ao imediatismo. Romances com cerca de mil páginas, como "Guerra e Paz", "Os Miseráveis", "Um Defeito de Cor" e "2666" seguem atravessando o tempo e sendo lidos e agraciados.


    Cada vez que olho para um desses tijolos que não cabe em 60 segundos nem pode ser resumido em 140 caracteres, sinto esperança. As coisas mudam, não há como resistir. Mas sempre haverá quem não se renda ao mercado. Quem esteja disposto a aprofundar reflexões. E quem consuma livros, peças e filmes longos. Ou mesmo leia uma coluna até o fim.


MADALOSSO, Giovana. Estamos viciados em narrativas curtas. Folha de S. Paulo, 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/giovana-maladosso/2024/10/estamos-viciados-em-narrativas-curtas.shtml. Acesso em: 10 nov. 2025 (Adaptado).

Ao anunciar, no primeiro parágrafo, que tentou criar uma frase de impacto logo no início do seu texto, a autora ironiza a seguinte característica dos leitores atuais:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: Nesta questão, o elemento decisivo é a interpretação do primeiro parágrafo do texto, no qual a autora diz: "Já começo esta coluna tentando criar alguma frase de impacto: vai que o leitor não aguenta ler o texto até o fim. Ler o parágrafo até o fim. Ler a linha até o fim." Esse trecho explicita, em tom irônico, a baixa tolerância do leitor contemporâneo à leitura prolongada e à manutenção da atenção até o final do texto, o que conduz ao gabarito C.

Tema central: ironia e atenção
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. O trecho não trata de dificuldade de entender críticas nem de reação do leitor a juízos críticos. O dado textual relevante é outro: a autora fala da incapacidade de sustentar a leitura até o fim. Portanto, a alternativa é eliminada por ausência de correspondência com o sentido literal e contextual do texto.
B
Errada
Incorreta. Não há no trecho qualquer referência a preferência por notícias negativas, sensacionalismo ou atração por conteúdo pessimista. O foco textual está na duração da leitura e na redução da atenção, não no teor negativo da informação.
C
Certa
A alternativa C corresponde diretamente ao que o primeiro parágrafo enuncia e ironiza. Ao dizer que precisou começar com uma frase de impacto porque o leitor talvez não chegue ao fim do texto, do parágrafo ou da linha, a autora critica a pressa e a fragmentação da atenção. O sentido expresso é o de impaciência diante de textos longos, e essa leitura ainda é confirmada pela coerência temática do restante do texto, todo voltado ao imediatismo e ao consumo de narrativas curtas.
D
Errada
Incorreta. O texto não aponta indiferença pelas temáticas jornalísticas. A crítica desenvolvida pela autora recai sobre a forma de consumo de conteúdo e sobre o imediatismo, abrangendo textos, músicas, vídeos, séries e literatura. Logo, não há base para restringir o problema a desinteresse por temas jornalísticos.
Pegadinha da questão
A banca explora a possível confusão entre “frase de impacto” e busca por sensacionalismo ou negatividade, quando o trecho, na verdade, ironiza a impaciência do leitor para acompanhar uma leitura até o fim.
Dica para questões semelhantes
  • Em perguntas sobre ironia, localize primeiro o trecho que explica a razão da fala do autor; aqui, a própria justificativa da frase de impacto já entrega o sentido.
  • Quando a alternativa trouxer tema não mencionado no texto, elimine-a por confronto direto com o conteúdo expresso.
  • Observe gradações enfáticas como “texto”, “parágrafo”, “linha”; elas costumam indicar o núcleo do efeito de sentido.
  • Use o restante do texto apenas para confirmar a leitura do trecho central, sem abandonar o que foi explicitamente dito na passagem destacada.

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Comentários

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GAB: B

Ela sugere que muitos não têm paciência para acompanhar um texto até o fim, nem mesmo um parágrafo ou uma linha inteira. Essa crítica se relaciona diretamente ao imediatismo e à impaciência diante de textos longos, tema central do artigo.

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