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Q2954178 Português

O texto a seguir é referência para as questões 31 a 34.


De como não ler um poema


Há tempos me perguntaram umas menininhas, numa dessas pesquisas, quantos diminutivos eu empregara no meu livro A Rua dos Cataventos. Espantadíssimo, disse-lhes que não sabia. Nem tentaria saber, porque poderiam escapar-me alguns na contagem. Que estas estatísticas, aliás, só poderiam ser feitas eficientemente com o auxílio de robôs. Não sei se as menininhas sabiam ao certo o que era um robô. Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas, devia ser um deles.

E mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o estruturalismo – o qual só depois vim a conhecer pelos seus produtos em jornais e revistas. Mas continuo achando que um poema (um verdadeiro poema, quero dizer), sendo algo dramaticamente emocional, não deveria ser entregue à consideração de robôs, que, como todos sabem, são inumanos.

Um robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia – caso fosse possível autopsiar uma coisa tão viva como é a poesia.

Em todo caso, os estruturalistas não deixam de ter o seu quê de humano...

Nas suas pacientes, afanosas, exaustivas furungações, são exatamente como certas crianças que acabam estripando um boneco para ver onde está a musiquinha.


(Mário Quintana)

A crônica de Mário Quintana tem como referencial as salas de aula e, mais especificamente, as aulas de Língua Portuguesa. A crítica que ele faz é:

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-discursivo: o texto critica a abordagem que trata o poema como objeto de análise mecânica e desumanizada. Isso fica claro em trechos como "Mas continuo achando que um poema (...) não deveria ser entregue à consideração de robôs" e "Um robô, quando muito, poderá fazer uma meticulosa autópsia", o que conduz ao reconhecimento de que a alternativa correta é a C.

Tema central: crítica à leitura mecanicista
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque as menininhas aparecem apenas como executoras da pesquisa. O próprio texto desloca a ironia para a professora — "Mas a professora delas, que mandara fazer as perguntas, devia ser um deles." — e, em plano mais amplo, para a postura mecanicista de leitura. Portanto, não são elas o alvo principal da crítica.
B
Errada
Incorreta porque contraria a informação temporal expressa no texto: "E mal sabia eu, então, que estava dando um testemunho sobre o estruturalismo – o qual só depois vim a conhecer". Esse trecho impede afirmar que ele já combatia conscientemente essa corrente antes do episódio narrado.
C
Certa
A alternativa C está correta porque sintetiza com fidelidade o posicionamento do cronista: ele critica a abordagem meramente estruturalista da literatura, isto é, a leitura que trata o poema como objeto a ser contado, dissecado e desmontado. No texto, essa postura aparece figurada pelos "robôs", pela "meticulosa autópsia" e pela imagem de "estripando um boneco para ver onde está a musiquinha", sempre em oposição ao poema como algo "dramaticamente emocional" e "vivo".
D
Errada
Incorreta porque "jornais e revistas" são apenas o meio pelo qual o autor afirma ter conhecido depois os "produtos" do estruturalismo. O texto não os apresenta como objeto da crítica; eles funcionam como circunstância acessória, não como alvo do posicionamento do cronista.
E
Errada
Incorreta porque lê literalmente uma imagem metafórica. No contexto, "robôs" não designa máquinas reais, mas leitores, professores ou críticos que analisam o poema de modo mecânico e desumanizado. A crítica dirige-se a essa conduta humana simbolizada pelos robôs, não aos robôs em sentido literal.
Pegadinha da questão
A banca mistura personagens e imagens do texto para induzir leitura superficial: menininhas, robôs, jornais e revistas aparecem no texto, mas o alvo efetivo da crítica é a abordagem meramente estruturalista da poesia; além disso, o marcador "só depois vim a conhecer" derruba a alternativa B.
Dica para questões semelhantes
  • Separe personagens incidentais do alvo central da crítica: nem todo elemento citado no episódio narrado é o referente principal da avaliação do autor.
  • Quando o texto usa imagens como "robôs" e "autópsia", verifique primeiro o valor metafórico antes de aceitar uma leitura literal.
  • Observe marcadores temporais explícitos, como "só depois vim a conhecer", porque eles eliminam inferências incompatíveis com a sequência narrada.

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