O amor de madrasta e de padrasto é um amor elevado,
um amor puramente desinteressado. Eles não têm o benefício da relação automática, do laço do sangue, precisam construir com o enteado uma amizade do zero, em que o conselho
depende da doçura e da pontualidade para não agredir e não
soar como censura.
São corajosos, pois alimentam uma relação desprovida
de garantia e estabilidade. Enfrentam os rótulos e o preconceito por ocupar, no imaginário da infância, o lugar natural da
mãe ou do pai. Provam o seu valor e adquirem credibilidade
pouco a pouco. Só a constância da lealdade é que consolidará a influência.
Demonstram, na prática, que não vieram substituir ninguém, mas somar amizades e pontos de vista. Surpreendem
com uma ternura desobrigada, uma atenção gratuita, uma
dedicação sem a recompensa de abraços e beijos fáceis.
Talvez não recebam cartãozinho no Dia das Mães e dos
Pais, talvez não sejam chamados para as festas da escola,
talvez não estejam representados nos desenhos infantis, talvez tenham que superar a carência e entender que as vitórias
são secretas e parciais. Andam no trapézio das emoções,
evitando sofrer a desqualificação em qualquer embate: “Você
não é meu pai”, “Você não é minha mãe”.
Não podem despertar a inveja e a concorrência sendo
bons demais, nem a preocupação sendo indiferentes. Não
podem dar bronca no momento de raiva nem devem ser tolerantes em excesso na alegria. Armados na paciência, amando a paciência, jamais invadem a privacidade, ficam na porta
esperando um convite para entrar na sensibilidade dos pequenos.
Não há papel mais difícil dentro de casa. Encarnam o
equilíbrio. Medirão as palavras e o tamanho do silêncio. Vão
se apaixonar por uma pessoa que possivelmente não será
para sempre. Mas o amor é para sempre quando o coração
se mostra um duradouro ventre.
(Fabrício Carpinejar. Jornal Zero Hora. 24.07.2018. Adaptado)
Ao tratar do amor sentido por madrastas e padrastos, o
autor da crônica se utiliza de