Se o samba, há décadas, é vendido como símbolo da
identidade nacional brasileira, nem sempre foi assim. No começo do século 20, sambistas, oriundos das camadas populares e negras da população, eram marginalizados ao ponto
de serem presos, acusados de vadiagem, uma contravenção
penal. Gêneros musicais que antecederam o samba, também
fortemente associados aos negros, como o lundu, o maxixe e
o jongo, eram acusados de terem coreografias e letras indecentes. Foi apenas na Era Vargas, entre 1930 e 1945, que o
Estado passou a valorizar manifestações culturais populares
como o samba, mas, ao mesmo tempo, tentando domesticá-las para adaptá-las às ideologias oficiais do governo: o nacionalismo, o trabalhismo e a democracia racial.
É nesse quadro que o repúdio de tanta gente ao funk
deve ser compreendido. Muitas das acusações sofridas pelo
funk estão presentes em outros gêneros musicais associados
a um público bem específico: jovens, negros, pobres, moradores de favelas e periferias. Assim como o pagode baiano e
o tecnobrega, o funk é acusado de fazer apologia ao crime,
às drogas e ao sexo. E como o sertanejo, o forró eletrônico e o pagode romântico, o funk, muitas vezes, é taxado de
“música pobre”. Os critérios que fazem um gênero musical
ser considerado “pobre”, no entanto, variam de acordo com
os diferentes valores dos diferentes grupos sociais.
Uma música que valoriza mais o ritmo, a batida e a dança
do que a letra e a harmonia pode ser a mais “rica” para se animar um baile, por exemplo. Já o funk ostentação, com letras
que fazem apologia a marcas de luxo, apesar de ser acusado
de alienado, questiona distinções sociais por meio do consumo e não deixa de expressar uma demanda de jovens pobres
e periféricos por reconhecimento e visibilidade.
(Danilo Cymrot. Revista E. Abril de 2024. Adaptado)
Em – Uma música que valoriza mais o ritmo, a batida e
a dança... – (3º parágrafo), a vírgula foi empregada para