O texto articula uma reflexão sobre a condição humana, espe...

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Q3910436 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.

 

O que vale nessa vida não cabe em algoritmo

 

O que vale nessa vida, nós ainda não sabemos. E talvez seja justamente essa ignorância que nos mantém vivos. Passamos séculos tentando explicar o inexplicável — com deuses, com teorias, com manuais de autoajuda — e seguimos errando, mas com elegância. Montaigne, em seus Ensaios, já desconfiava disso quando escreveu: “Mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça cheia.” Nós, humanos, seguimos com as duas meio tortas.

O que vale nessa vida tem o nosso jeito —um jeito malfeitor, hesitante, às vezes belo por engano. O jeito de quem pensa que entende o amor, mas ainda tropeça no próprio medo. Pascal, em Pensamentos, dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. E é aí que moramos: nesse espaço entre o cálculo e o caos.

Somos criaturas curiosas. Capazes de criar sinfonias e guerras, poesia e fake news, ternura e destruição. Dostoievski nos avisou, em Os Irmãos Karamázov, que “todos somos culpados de tudo e por todos”. Talvez por isso sejamos tão inquietos: carregamos a culpa de um mundo inteiro dentro do peito.

O que vale nessa vida, se ainda vale alguma coisa, talvez seja o gesto. O gesto pequeno, humano, falho —aquele que ajeita uma confusão que nem é nossa.

Guimarães Rosa dizia em Grande Sertão: Veredas: “Viver é muito perigoso.” E mesmo assim vivemos — teimosamente. Acordamos, trabalhamos, amamos e fracassamos com uma dignidade que beira o heroísmo. Entre a fome e o riso, seguimos apostando em dias melhores, mesmo sabendo que o jogo é viciado.

O que vale nessa vida talvez seja esse dom humano de suportar o insuportável. Albert Camus, em O Mito de Sísifo, chamou isso de revolta: “O único problema filosófico realmente sério é o suicídio.”

E nós, por pura teimosia, escolhemos não morrer. Escolhemos continuar. Escolhemos rir no meio da tragédia e amar mesmo sabendo que tudo desaba.

Há, em nós, um modo estranho de ajeitar o caos. T.S. Eliot, em Quatro Quartetos, escreveu: “O tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro.” É o jeito dele dizer que estamos condenados a repetir o que sentimos. Que a vida é cíclica, e o que cura hoje pode ferir amanhã. Ainda assim, insistimos em chamar isso de amor.

Byung-Chul Han, em A Agonia do Eros, explica que vivemos numa era onde o outro se tornou ameaça. E é por isso que amar, hoje, é quase um ato revolucionário. Amar de verdade — sem performance, sem filtros, sem publicidade — é dizer ao mundo: “eu ainda sou humano”. Eduardo Galeano, em O Livro dos Abraços, escreveu que “somos o que fazemos para mudar o que somos”. Talvez seja por isso que seguimos — não porque sabemos o caminho, mas porque o andar é o único verbo que nos resta.

Graciliano Ramos, o mais sóbrio dos realistas, deixou em Vidas Secas a constatação de que até o silêncio tem sede. E nós, os humanos, seguimos sedentos — de verdade, de ternura, de sentido.

Jean-Jacques Rousseau dizia em O Contrato Social que “o homem nasceu livre, e por toda parte se encontra acorrentado”. Talvez sejamos isso mesmo — seres que amam as próprias correntes. Gostamos de reclamar da prisão, mas temos medo da porta aberta.

No fim, o que vale nessa vida é o nosso jeito de continuar, mesmo quebrados, mesmo cansados, mesmo sem entender nada. O mundo se repete, o caos nos visita, mas nós, os humanos, seguimos ajeitando o impossível.

Enquanto os algoritmos tentam prever quem somos, seguimos sendo imprevisíveis. Talvez seja justamente essa falha, essa incoerência, esse jeito de tropeçar e levantar, que torna o ser humano a mais bela imperfeição da Terra.

 

Autor: Felipe Daroit (adaptado).

O texto articula uma reflexão sobre a condição humana, especialmente ao afirmar que habitamos “o espaço entre o cálculo e o caos”. Esse enunciado indica:
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura contextual da metáfora no trecho “Pascal, em Pensamentos, dizia que “o coração tem razões que a própria razão desconhece”. E é aí que moramos: nesse espaço entre o cálculo e o caos.” A oposição entre “coração” e “razão” é retomada por “cálculo” e “caos”, indicando convivência entre racionalidade analítica e dimensões afetivas, imprevisíveis e não totalmente controláveis; por isso, a alternativa correta é a C.

Tema central: condição humana paradoxal
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque introduz uma ideia que o trecho não autoriza: “sobreposição constante de métodos racionais” que “anulam a expressividade humana”. O texto não afirma supremacia do cálculo nem anulação do humano; ao contrário, o valor de “entre” indica coexistência entre os polos, e não domínio exclusivo da razão.
B
Errada
Está errada por absolutização indevida. A alternativa fala em “supremacia absoluta de afetos difusos” e em inviabilização de “qualquer forma de pensamento estruturado”, mas o texto mantém explicitamente a presença da razão ao lado do “coração”. A metáfora constrói tensão entre os polos, não eliminação do pensamento analítico.
C
Certa
A alternativa C traduz com fidelidade a metáfora do texto. O parágrafo articula primeiro “coração” e “razão” e, em seguida, reformula essa dualidade como “cálculo” e “caos”. Assim, o enunciado não aponta vitória de um polo sobre o outro, mas a experiência humana como convivência tensa entre racionalidade analítica e dimensões afetivas, subjetivas e imprevisíveis que escapam ao controle lógico.
D
Errada
Está errada porque transforma tensão em impossibilidade definitiva. O texto diz que “moramos” nesse espaço, isto é, que a experiência humana se dá nessa convivência entre cálculo e caos. Isso não equivale a afirmar incapacidade final de conciliar lógica e subjetividade, mas sim existência no entremeio desses polos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre oposição e exclusão: o trecho opõe “cálculo” e “caos”, mas não elimina nenhum dos dois; quem lê a metáfora como supremacia de um polo ou como inconciliabilidade absoluta cai nas alternativas erradas.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto usa “entre”, verifique se ele indica coexistência ou tensão entre polos, e não escolha alternativas que convertam isso em vitória de um lado.
  • Em metáforas interpretativas, volte ao trecho imediatamente anterior e posterior para identificar quais palavras concretizam os polos em jogo.
  • Desconfie de alternativas com termos absolutos como “anulam”, “supremacia absoluta”, “qualquer forma” e “incapacidade definitiva” quando o texto trabalha nuance e convivência paradoxal.

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