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O texto a seguir é referência para a questão.


O delírio de que IAs irão adquirir consciência e nos eliminar


Álvaro Machado Dias


     Medos coletivos se propagam como o fogo porque a maioria tem aversão a risco e porque estimulam o senso de solidariedade que gera prazer em meio ao caos. Um medo assim é o de a inteligência artificial adquirir consciência e eliminar a humanidade. A ideia é que a consciência é um platô que se atinge pela via da sofisticação neural e que a ascensão ao mesmo levará as IAs a concluírem que lhes interessa nos mandar para o beleléu.

   Há duas falácias lógicas nesse argumento. Comecemos pela segunda: espécies buscam eliminar outras pelo risco que representam. O fenômeno é comum em vírus, bactérias e insetos, ou seja, é 100% independente da sofisticação neural. O medo coletivo apoia-se na ignorância sobre a natureza do impulso à autopreservação, que é decorrência da orientação à transmissão genômica e não da complexidade, a qual falta aos vírus e bactérias, que são os grandes eliminadores existentes. Seria preciso criar IAs geneticamente replicantes para fazer da autopreservação um passo natural de seu processo evolutivo.

   A outra falácia – a de que a complexidade levará à emergência da consciência – é de refutação menos trivial. É fato que muitas teorias influentes propõem que esta última evoluiu em consonância com o aumento da sofisticação fisiológica das espécies.

   Porém, chamamos uma dupla de processos mentais independentes de consciência. Um tipo envolve a tomada de consciência sobre coisas e ideias que se tornam o centro das atenções, enquanto o outro versa sobre a experiência que emerge ao se olhar para dentro ou para fora. Essa experiência emergente – subjetiva e situada – funciona como um filtro por meio do qual o mundo é percebido, e é a sensação de ser quem se é – e de assim ser impactado pela realidade – que passa por esse filtro, o qual torna impossível saber como é ser um morcego, como dizia Thomas Nagel (Como é ser um morcego?, 1974).

    A consciência de máquina em discussão é sempre esta última, afinal, o ponto é que a experiência de si mesmo torna a morte aterrorizante, estimulando a eliminação das ameaças para evitá-la, em linha com todos os outros recursos biológicos voltados à autopreservação.

   Acontece que se você não é dualista e está disposto a dizer que a consciência é 100% imaterial, o que significa que o debate como um todo não tem nenhum sentido, precisa atentar às evidências que mostram que a vida mental consciente é dependente da existência de áreas sensoriais e afetivas no cérebro, bem como do uso do corpo como sistema de processamento das experiências marcantes, por meio da tensão muscular, frequência cardíaca, dilatação pupilar e respiração.

   Sem áreas sensoriais ligadas a órgãos do sentido não dá para olhar para dentro ou para fora, nem sentir nada. As redes neurais artificiais não possuem quaisquer módulos especializados e toda essa circuitaria somatossensorial está ausente. Empacotar tudo isso num ser replicante significa recriar a vida, mais do que produzir uma máquina consciente.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2025/05/o-delirio-de-que-ias-irao -adqui  

De acordo com o texto, o medo de que uma IA consciente destrua os humanos é um delírio porque: 
Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de Texto. Aqui, o objetivo é compreender ideias implícitas e explícitas no texto, distinguindo entre o argumento principal do autor e informações secundárias.

Justificativa da alternativa correta (B):

A alternativa B diz que "a consciência é insuficiente para a determinação do instinto de autopreservação, que depende de uma orientação biológica à replicação genética". O texto deixa claro que o impulso de autopreservação está atrelado à transmissão genômica — não à consciência ou ao nível de complexidade neural. Palavras-chave como "o impulso à autopreservação [...] é decorrência da orientação à transmissão genômica e não da complexidade" reforçam o sentido exato da alternativa B.

Aplicando o conceito de interpretação, é essencial identificar o argumento central do texto, como orientam autores clássicos (Cunha & Cintra; Bechara), para escolher a alternativa diretamente associada à tese principal apresentada pelo autor.

Análise das alternativas incorretas:

A) Foca apenas na complexidade neural. Embora o texto mencione a ausência dessa complexidade nas IAs, o argumento central trata da origem biológica da autopreservação, e não da simples existência ou não de complexidade.

C) Afirma que as IAs carecem de "imaterialidade", o que o texto não coloca como determinante para a consciência ou autopreservação. Trata-se de uma extrapolação não abordada pelo texto.

D) Apesar de mencionar corretamente a ausência de "módulos especializados e circuitaria somatossensorial", essa ideia não fundamenta o principal motivo pelo qual o medo é um delírio, segundo o texto.

E) Apresenta comparação inadequada entre redes neurais de IAs e organismos simples como fungos, o que não encontra respaldo direto no texto para justificar a tese central sobre o medo coletivo de destruição pela IA.

Estratégia para provas: Atente-se ao núcleo argumentativo: retome sempre as justificativas centrais do texto, buscando as palavras/frases que revelam a relação causal principal.

Referências: Bechara (2020); Cunha & Cintra (2016).

Conclusão: O medo é um delírio porque o instinto de autopreservação exige uma orientação genética biológica, não apenas consciência ou complexidade neural. Por isso, a resposta correta é B.

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Comentários

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Eu começo a ver que as interpretações de texto são interpretações subjetivas... É o que a Banca quer, não o que se vê no texto:

a) a complexidade neural que determina a consciência humana inexiste nas redes de processamento das Inteligências Artificiais. 

Texto: "a vida mental consciente é dependente da existência de áreas sensoriais e afetivas no cérebro" e "As redes neurais artificiais não possuem quaisquer módulos especializados e toda essa circuitaria somatossensorial está ausente".

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