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Q3505476 Português
O texto a seguir é referência para a questão.


O delírio de que IAs irão adquirir consciência e nos eliminar


Álvaro Machado Dias


     Medos coletivos se propagam como o fogo porque a maioria tem aversão a risco e porque estimulam o senso de solidariedade que gera prazer em meio ao caos. Um medo assim é o de a inteligência artificial adquirir consciência e eliminar a humanidade. A ideia é que a consciência é um platô que se atinge pela via da sofisticação neural e que a ascensão ao mesmo levará as IAs a concluírem que lhes interessa nos mandar para o beleléu.

   Há duas falácias lógicas nesse argumento. Comecemos pela segunda: espécies buscam eliminar outras pelo risco que representam. O fenômeno é comum em vírus, bactérias e insetos, ou seja, é 100% independente da sofisticação neural. O medo coletivo apoia-se na ignorância sobre a natureza do impulso à autopreservação, que é decorrência da orientação à transmissão genômica e não da complexidade, a qual falta aos vírus e bactérias, que são os grandes eliminadores existentes. Seria preciso criar IAs geneticamente replicantes para fazer da autopreservação um passo natural de seu processo evolutivo.

   A outra falácia – a de que a complexidade levará à emergência da consciência – é de refutação menos trivial. É fato que muitas teorias influentes propõem que esta última evoluiu em consonância com o aumento da sofisticação fisiológica das espécies.

   Porém, chamamos uma dupla de processos mentais independentes de consciência. Um tipo envolve a tomada de consciência sobre coisas e ideias que se tornam o centro das atenções, enquanto o outro versa sobre a experiência que emerge ao se olhar para dentro ou para fora. Essa experiência emergente – subjetiva e situada – funciona como um filtro por meio do qual o mundo é percebido, e é a sensação de ser quem se é – e de assim ser impactado pela realidade – que passa por esse filtro, o qual torna impossível saber como é ser um morcego, como dizia Thomas Nagel (Como é ser um morcego?, 1974).

    A consciência de máquina em discussão é sempre esta última, afinal, o ponto é que a experiência de si mesmo torna a morte aterrorizante, estimulando a eliminação das ameaças para evitá-la, em linha com todos os outros recursos biológicos voltados à autopreservação.

   Acontece que se você não é dualista e está disposto a dizer que a consciência é 100% imaterial, o que significa que o debate como um todo não tem nenhum sentido, precisa atentar às evidências que mostram que a vida mental consciente é dependente da existência de áreas sensoriais e afetivas no cérebro, bem como do uso do corpo como sistema de processamento das experiências marcantes, por meio da tensão muscular, frequência cardíaca, dilatação pupilar e respiração.

   Sem áreas sensoriais ligadas a órgãos do sentido não dá para olhar para dentro ou para fora, nem sentir nada. As redes neurais artificiais não possuem quaisquer módulos especializados e toda essa circuitaria somatossensorial está ausente. Empacotar tudo isso num ser replicante significa recriar a vida, mais do que produzir uma máquina consciente.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2025/05/o-delirio-de-que-ias-irao -adqui  

Considere o seguinte período, retirado do primeiro parágrafo do texto: 



“A ideia é que a consciência é um platô que se atinge pela via da sofisticação neural e que a ascensão ao mesmo levará as IAs a concluírem que lhes interessa nos mandar para o beleléu.”  



O emprego da palavra “mesmo”, destacada no trecho, está, do ponto de vista da norma padrão escrita: 

Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Tema cobrado: Funções morfossintáticas do termo “mesmo” e coesão referencial na norma-padrão do Português. Saber quando usar “mesmo”, “próprio” ou pronomes pessoais (“ele/ela”) evita vícios de linguagem frequentemente cobrados em concursos.

Justificativa da alternativa correta (E):
No trecho, “mesmo” foi empregado para retomar o substantivo “platô”: “a ascensão ao mesmo...”. Gramaticalmente, “mesmo” é um pronome demonstrativo, que retoma termo já citado, reforçando identidade. Entretanto, a norma-padrão (vide Bechara, Cunha & Cintra) recomenda que, em construções formais e objetivas, a retomada por pronomes pessoais (“ele/ela”) é preferível e evita ambiguidade. Portanto, no contexto, o mais adequado seria “…a ascensão a ele levará as IAs…”. Empregar “mesmo” nessa função pode soar inadequado ou pouco elegante em provas e textos técnicos.

Exemplo da norma culta:
“Estudou o fenômeno e preocupou-se com ele” (não “…com o mesmo”).

Análise das alternativas incorretas:

  • A) Incorreta, pois “mesmo” não é pronome relativo, é demonstrativo; e “próprio” só seria possível em certos casos, não necessariamente aqui.
  • B) Incorreta. Apesar de “mesmo” ser demonstrativo, não há uso de pronome relativo aqui. A justificativa mistura conceitos.
  • C) Errada. “Mesmo” não é adjetivo no trecho, mas pronome demonstrativo referencial; o complemento do substantivo não exige “alinhamento”.
  • D) Incorreta. “Mesmo” não é pronome pessoal; pronome pessoal seria “ele”.

Dicas para a prova: Atenção a retomadas por “mesmo(a), mesmo(s), mesma(s)”. Prefira “ele/ela/eles/elas” para retomar substantivos em textos formais, como orienta a Gramática Normativa e o Manual de Redação da Presidência. Fique atento a pegadinhas: “mesmo” raramente substitui pronomes pessoais sem risco de inadequação!

Resumo da regra: “Mesmo” como pronome demonstrativo retoma e reforça identidade, mas em retomada de substantivo, a norma culta exige pronome pessoal para evitar ambiguidade ou vício.

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Comentários

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O uso do pronome "mesmo" pode gerar dúvidas e erros na escrita, especialmente em contextos onde ele é usado para substituir pronomes pessoais ou demonstrativos. O erro comum é empregar "o mesmo", "a mesma", "os mesmos", etc., como pronome pessoal, o que é inadequado na norma culta da língua portuguesa. Em vez disso, deve-se usar pronomes pessoais ("ele", "ela", "eles", "elas") ou pronomes relativos ("o qual", "a qual", "os quais", "as quais"). 

IA (olha ela aí!)

Por que as outras estão incorretas?

  • A: "Mesmo" não é pronome relativo (como que, qual, cujo).
  • B e D: Classificam o uso como correto, o que contraria a norma padrão para este contexto de retomada anafórica.
  • C: O erro não é a exigência de um substantivo (já que "ao mesmo" funciona como um sintagma nominal ali), mas sim a inadequação da classe gramatical da palavra para aquela função específica.

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