Assinale a alternativa que apresenta comentário que aproxima...

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Q475845 Português
                                      Meter a língua onde não é chamado

    Azeite, não é meu parente! Nem todos entendem, mas a língua que se falava antigamente era tranchã, era não?

    As palavras pareciam todas usar galocha, e eu me lembro como ficava cabreiro quando aquela teteia da rua, sempre usando tank colegial, se aprochegava com a barra da anágua aparecendo, vendendo farinha, como se dizia. Só porque tinha me trocado pelo desgramado que charlava numa baratinha, ela sapecava expressões do tipo “conheceu, papudo?!", “Ora, vá lamber sabão", eu devolvia de chofre, com toda a agressividade da época, “deixa de trololó, sua sirigaita".

    A língua mexe, pra frente e pra trás, e assim como o bacana retornou guaribado para servir de elogio nos tempos modernos, pode ser que breve, na legenda de uma foto da Daniela Cicarelli, os jornais voltem a fazer como diante da Adalgisa Colombo outrora, e digam que ela tem it, que ela é linda, um chuchu. São coisas do arco da velha, vai entender?! Não é só o mistério da ossada da Dana de Teffé que nos une ao passado. Não saberemos nunca, também, quem matou o mequetrefe, a pinimba, o tomar tenência e o neca de pitibiribas, essas delícias vocabulares que enxotadas pelo bom gosto gramatical picaram a mula e foram dormitar, como ursos no inverno, numa página escondida do dicionário.

    Outro dia eu disse para as minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir com esse maiô Catalina que botei na frase. Nada escangalha mais, no máximo não funciona. Me acharam, sem usar tamanho e tão cansativo polissílabo, um completo mocorongo. Como sempre, estavam certas. Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagemdo tempo,mas o que sai da boca tem data. Cuidado cinquentões com o ato falho de pedir um ferro de engomar, achar tudo chinfrim, reclamar do galalau que senta na sua frente no cinema e a mania de dizer que a fila do banco está morrinha. Esse papo, por mais que você curta música techno e endívias, denuncia de que década você veio.
    [...]
    Uma língua bem exercida é metida, jamais galinha morta. É feita de avanços e recuos, e se isso parece reclame de algum programa do canal a cabo Sexy Hot, digamos que, sim, pode ser. Língua, seja qual for, é erótica. Dá prazer brincar com ela. Uma lambida no passado envernizaria novamente palavras que estavam lá, macambúzias e abandonadas, como quizumba, alaúza e jururu, expressões da pá virada como “na maciota", “onde é que nós estamos!" e “ir para a cucuia". Certamente, por mais cara de emplastro Sabiá que tenham, elas dariam na verdade uma viagrada numa língua que tem sido sacudida apenas pelo que é acessado do cibercafé e o demorô dos manos e das minas.

    Meter a língua onde não é chamado pode ser divertido. Lembro de Oscarito passando a mão na barriga depois de botar pra dentro uma feijoada completa e dizer, todo preguiçoso e feliz, “tô comuma idiossincrasia!". Estava com o bucho cheio, empanturrado de palavras. Troque essa dieta de alface americana, de palavras transgênicas gordas, compridas e nonsenses como um paio de porco. É o banquete que eu sugiro, que anda na moda mas não vale um caracol. Caia de boca num sarrabulho com assistência na porta, umpifão de tirar uma pestana do caramba, uma car raspana batuta. Essa idiossincrasia vai fazer sentido. Se alguém, depois de receber todas essas palavras de lambuja, repetir a mamãe das antigas e, amuado, gritar “dobre a língua", não se faça de rogado-estique.

               SANTOS, Joaquim Ferreira dos.Meter a língua onde não é chamado . Jornal “O Globo", 08/09/2003, 2º Caderno. Disponível emwww.releituras.com.

Assinale a alternativa que apresenta comentário que aproxima a crônica lida da importância de se conhecer os usos da fala em determinadas situações de comunicação oral.
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a relação entre variação linguística, usos da fala e efeitos sociais em situações concretas de comunicação oral, que é o eixo pedido pelo comando. A crônica afirma: "A língua mexe, pra frente e pra trás [...] Eu tenho visto mulheres de botox, homens que escondem a idade, tenho visto todas as formas de burlar a passagem do tempo, mas o que sai da boca tem data. [...] Esse papo [...] denuncia de que década você veio." Assim, a alternativa correta deve reconhecer que observar a língua em uso ajuda a compreender a adequação comunicativa e a evitar equívocos.

Tema central: variação linguística oral
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque afirma que as palavras permanecem intactas, "independente de tempo e espaço", mas o texto diz o contrário: "A língua mexe, pra frente e pra trás". A crônica é construída justamente sobre a mudança vocabular ao longo do tempo e sobre o valor social variável das palavras.
B
Errada
Está errada porque atribui à língua caráter "simétrico e imutável" e ainda fala em repúdio a influências externas. Isso contraria frontalmente a formulação explícita do texto, que valoriza avanços, recuos e circulação de usos linguísticos. A ideia de imutabilidade é incompatível com o eixo temático da crônica.
C
Errada
Está errada porque desloca o foco para a escrita como fundamento da oralidade, algo que o texto não sustenta. Embora a crônica seja escrita, o objeto de reflexão é a fala: "o que sai da boca tem data". Não há no texto defesa de primazia da competência escrita nem estabelecimento da oralidade a partir dela.
D
Errada
Está errada porque restringe o universo linguístico à ocorrência escrita, quando a crônica enfatiza repetidamente o registro oral e seus efeitos sociais. O texto é explícito ao tratar do que "sai da boca" e de como "Esse papo [...] denuncia de que década você veio". A exclusividade da escrita contradiz o recorte temático pedido no comando.
E
Certa
A alternativa E é a única compatível com o núcleo da crônica: conhecer os usos reais da fala ajuda a compreender efeitos de sentido, marcas geracionais e desencontros na comunicação. O texto mostra que certas palavras envelhecem, retornam ou causam estranhamento em interlocutores de outra geração, como em "Outro dia eu disse para as minhas filhas que o telefone estava escangalhado. Morreram de rir". Daí a inferência autorizada pela base: contemplar a língua em uso pode auxiliar a desfazer equívocos nas interações orais.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar o saudosismo vocabular do cronista como defesa de uma língua fixa e confundir o fato de a crônica estar escrita com a ideia de que ela trate prioritariamente da escrita, quando o foco é a fala em uso.
Dica para questões semelhantes
  • Leia o comando antes de julgar as alternativas: aqui ele exigia relação com usos da fala em situações de comunicação oral.
  • Quando o texto traz marcas como "o que sai da boca" e exemplos de estranhamento entre gerações, o eixo é variação linguística e adequação de uso, não norma fixa.
  • Elimine de imediato alternativas que falem em língua imutável, exclusiva da escrita ou superioridade da escrita sem apoio textual.
  • Se a alternativa correta não repetir o texto literalmente, verifique se ela preserva a tese central do texto sem contrariá-la.

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