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Ano: 2019
Banca:
CETAP
Órgão:
Prefeitura de Tailândia - PA
Provas:
CETAP - 2019 - Prefeitura de Tailândia - PA - Psicólogo
|
CETAP - 2019 - Prefeitura de Tailândia - PA - Técnico em Suporte Pedagógico |
CETAP - 2019 - Prefeitura de Tailândia - PA - Enfermeiro Clínico |
Q4416359
Não definido
Texto associado
Pais, façam o favor de serem chatos: pais siderados
ou inibidos diante da tarefa de educar são um perigo
Um ginecologista conversa com sua paciente enquanto
a examina. Seria uma cena corriqueira, se não víssemos seu
rosto emergir dentre as pernas da mulher com um cigarro na
boca.
São os anos 1960 e a cena da série "Mad Men" (2007-2015,
disponível na Netflix) ilustra a onipresença do cigarro no mundo
àquela époса.
Enquanto a propaganda do Marlboro associava cigarro à
masculinidade, saúde e natureza, as pesquisas médicas
denunciavam que a terra "onde os homens se encontram" estava
mais para "fazenda branca" do que para paraíso dos machões.
Pesquisar os efeitos, admiti-los publicamente, lutar contra oS
interesses financeiros dos gigantes do tabaco- indústria e
propaganda -, implementar medidas de saúde pública para mudança de hábito e diminuição de danos, lutar contra o próprio vício, enfim, tratou-se e trata-se de um longo e interminável
processo.
Será que esse exemplo pode nos ajudar a pensar sobre
o atual vício nas redes virtuais? Pesquisas e experiências
clínicas se acumulam mostrando os efeitos alarmantes do
mergulho no mundo virtual sem mediação e sem restrições:
depressão, dificuldades nas relações sociais, sexuais,
escolares, distúrbios psíquicos, somáticos, adição, empobrecimento simbólico, violência.
A pesquisa internacional TIC Kids On-line estuda, desde 2012,
riscos e oportunidades que o uso da internet oferece a crianças e
adolescentes entre 9 e 17 anos.
Vale ressaltar que as mídias, diferentemente de outros
vícios, são ferramentas fantásticas para a aquisição de
conhecimento, para a realização de tarefas cotidianas e para
certo tipo de interação social.
Tanto pior, pois fica ainda mais difícil discriminar joio e
trigo, quando as vantagens são evidentes e inegáveis. Mas os
riscos também o são e, se perdermos mais tempo desbundados
ou inibidos diante da revolução virtual é porque nos omitimos da
nossa responsabilidade de apresentar paulatinamente o mundo
às crianças.
Uso restrito e mediado durante toda a infância, controle
de conteúdo, compartilhamento de experiências com os pais,
regras de uso mantidas mesmo sob protesto das crianças e
aquisição de liberdade gradual são dicas apontadas por
especialistas, mas que pais, mães e educadores mais investidos
não teriam dificuldade de deduzir sozinhos.
Pais se mostram inibidos por não dominarem as
ferramentas e, ao mesmo tempo, por se encontrarem tão ou
mais abduzidos pelas novidades virtuais quanto os filhos.
É muito difícil segurar a onda de uma criança quando ela
vê que à sua volta "todos os outros pais deixam" ou está "todo
mundo usando". Sinal de que falta uma ação coletiva para
enfrentar os riscos comprovados da virtualidade precoce e
desassistida.
Já sabemos que as redes virtuais fazem muito mal, que
seus inventores não deixam os próprios filhos usarem, que as
pesquisas apontam a necessidade de mediar e restringir o uso.
O que esperamos? Que todos os outros assumam seu papel,
antes de o assumirmos nós mesmos?
Se cada pai/mãe fizesse o servicinho sujo que lhe cabe,
de aguentar dizer não - e a cara feia decorrente -, provavelmente sobrariam menos perrengues para quem assume a árdua
tarefa de educador.
Depois de uma batalha campal para sustentar perante a
filha menor de idade que ela não poderia ir à balada de adultos,
que "todas-as-minhas-amigas-vão-papai!", meu marido recebe
um telefonema.
Pais que deixaram os filhos irem -e se arrependeram
diante dos riscos envolvidos- ligam para perguntar como ele
conseguiu aguentar a tromba da filha.
Resposta sincera? Apesar de vocês.
Vera laconelli Diretora do Instituto Gerar, autora de "O Mal-estar na
Maternidade" e "Como Criar Filhos no Século XXI".
É doutora em psicologia pela USP.
Fonte: Folha (22/10/2019).
O artigo termina com a frase: "Resposta sincera? Apesar de
vocês.", o que pode ser entendida como: