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No texto I, o autor utiliza expressões como “um cara”, “um ...

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Q4113289 Português
TEXTO I


Inteligência artificial vai substituir sua mãe

Marcos Nogueira


Minha mãe tinha um caderninho de receitas, talvez mais de um.

Seu caderno de receitas, como o da maioria das mães daquele tempo, era uma mistureba de anotações e recortes de impressos que vinham de revistas e embalagens de alimentos.

Ele sumiu, foi perdido. Talvez esteja no meio das tralhas na casa da velha, talvez tenha sido emprestado e nunca devolvido.

Como a mãe está inacessível, presa em sua cabeça com Alzheimer avançado, disponho apenas de meus próprios recursos quando quero reproduzir uma receita dela.

Deixo‑me guiar pela memória sensorial e por aquilo que observei na cozinha da dona Ana Bertoni. Então preencho as lacunas com minha experiência e meus gostos.

Sou um cara das antigas. Não deve demorar muito até que a inteligência artificial substitua as receitas familiares.

Ninguém mais tem caderno de receitas, nem as mães. Aliado a isso, ninguém anota nada à mão. Quase ninguém recorre à mídia física quando quer cozinhar algo diferente. Eu tenho dezenas de livros de culinária que raramente são tocados. É muito mais prático buscar informação on‑line.

Com o inevitável avanço da IA, essas buscas serão cada vez mais direcionadas a robôs que pretensamente entregam um resultado mais personalizado.

Estive recentemente num congresso em Madri que tinha como uma das principais discussões a aplicação da inteligência artificial na gastronomia.

Numa das palestras, foi apresentado um troço (programa? aplicativo?) destinado a criar cardápios para restaurantes que trabalham com menu fixo no almoço. Você alimenta a coisa com parâmetros como estilo culinário, custo e número de serviços.

Aí a parada sugere, para a segunda‑feira, salada de batatas, frango com legumes, creme de papaia. Para a terça, salada de legumes, papaia com batatas, creme de frango. E assim por diante. A inovação dispensa a necessidade de um chef. Ela prescinde de criatividade.

Inteligência artificial não cria nada, só recicla conhecimento gerado por humanos. Por isso as mães são muito melhores.


FOLHA DE SÃO PAULO. Folha de S.Paulo, Cozinha

Bruta, 9 maio 2025, p. C 16 (adaptado).
No texto I, o autor utiliza expressões como “um cara”, “um troço”, “a parada” e outras marcas da linguagem informal.

Identifique o que esse desvio revela nesse contexto e assinale a alternativa correta. 
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é distinguir erro de escolha de registro: em “Sou um cara das antigas.”; “foi apresentado um troço (programa? aplicativo?)”; “Aí a parada sugere”, as formas destacadas são marcas intencionais de informalidade/coloquialidade dentro de um texto opinativo, o que revela uso consciente de variação linguística para construir voz autoral e proximidade com o leitor; por isso, o gabarito é D.

Tema central: Variação linguística
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta. As expressões citadas não caracterizam erro gramatical no sentido de falha involuntária da língua. O que o texto apresenta é escolha lexical coloquial, usada intencionalmente. A questão cobra variação linguística no contexto discursivo, não identificação de erro.
B
Errada
Incorreta. Há afastamento do registro formal, mas reduzir o fenômeno a “desvio da norma-padrão” erra o foco da questão. O comando pergunta o que esse uso revela no contexto, e a resposta adequada é o valor discursivo da escolha: recurso consciente de variação linguística, não mera infração normativa.
C
Errada
Incorreta. O texto pode ter tom descontraído e até leve ironia, mas as marcas “um cara”, “um troço” e “a parada” não têm função exclusivamente humorística. Elas servem principalmente para construir oralidade, voz pessoal e proximidade com o leitor.
D
Certa
A alternativa D está correta porque o enunciado pede o que essas marcas revelam no contexto, e o contexto mostra um articulista em primeira pessoa, com tom conversacional, usando expressões coloquiais de modo deliberado. Essas formas não aparecem como falha involuntária, mas como recurso discursivo que produz oralidade, subjetividade e aproximação, sem prejudicar a compreensão do texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre linguagem informal e erro, além da leitura apressada da palavra “desvio” como simples infração à norma-padrão, quando o ponto decisivo era reconhecer a intencionalidade estilística.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado perguntar o que uma forma linguística revela no contexto, observe a função discursiva dela no texto, não só sua distância da norma-padrão.
  • Marcas de oralidade em texto escrito podem ser escolha consciente de registro, especialmente em textos opinativos e em primeira pessoa.
  • Não trate coloquialidade automaticamente como erro; primeiro verifique se ela constrói voz autoral, proximidade ou subjetividade.
  • Se houver humor ou descontração, confirme se esse é o efeito principal ou apenas um efeito secundário da escolha linguística.

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