Sobre as relações morfossintáticas do texto, assinale a afir...

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Q2424691 Português

INSTRUÇÃO: Leia o texto e responda às questões de 01 a 03.


Uma velhinha é uma velhinha


  1. Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido
  2. jovem, e tido um namorado, e feito todas as coisas a que o amor obriga, por mais que eu queira, não
  3. acredito. Ou, se acredito, não entendo. Porque uma velhinha é uma velhinha, tal qual uma
  4. rosa, que é uma rosa. Dá-me uma ideia do ser humano eterno, que sempre houve e não deixará de haver, com sua golinha de
  5. rendas, seu chapéu com aplicação de jasmins, seu guarda-chuva, seus sapatos de fivelas. As de Paris
  6. passeiam, de manhã, em Auteuil, comprando carne para os gatos, queijos e legumes para si. Passeiam seus
  7. cães, à tardinha, no Bois e, enquanto dão-lhes folga, discutem, umas com as outras, sobre a última e a
  8. próxima guerra. Queixam-se do frio, da bruma constante e, se um sinal de luz aponta para os lados de
  9. Versailles, dizem todas, ao mesmo tempo, numa felicíssima esperança: "vá faire beau!" Adoram o sol. Que
  10. engraçado vê-las ao sol! Ficam mexeriqueiras, rigorosas e bisbilhotam a vida de todas as velhinhas ausentes.
  11. Voltam à humildade de antes, quando o sol se cobre e a praça esfria outra vez, mandando-as para casa.
  12. Passava horas vendo as velhinhas de Paris. Na Ferme d'Auteuil, entre cinco e seis da tarde, tomavam seu
  13. chá, lentamente, e era uma delícia ouvi-las conversar. Mas nunca me consenti acreditar que houvessem sido
  14. mocinhas, ou que houvessem tirado aquela espécie de farda, um dia sequer, em suas vidas.
  15. Há pouco tempo, em um café de Friburgo, sentou-se uma velhinha para conversar. Precisava de um
  16. dinheiro, para caiar a casa e ajudar no casamento de uma neta. Aceitou uma xícara, beliscou de uns doces, e
  17. foram tantas as perguntas, que acabou contando sua vida. Tivera um namorado, andara fazendo suas
  18. facilidades com ele. Depois, casou com outro e, mesmo casada, facilitou também, porque não soubera
  19. resistir aos encantos de um primo, em Magé. Por fim, morreu-lhe o marido e, na campanha por um novo
  20. casamento, dera-se a duas ou três fantasias pouco recomendáveis, em senhoras viúvas. Isso representou para
  21. mim um choque muito grande. De repente, as velhinhas de Auteuil deixaram de ser os seres eternos que eu,
  22. sabiamente, imaginara. Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim, que comete dos meus
  23. erros e, como eu, de felicidade em felicidade, de abraço em abraço, de ilusão em ilusão, inebriadamente,
  24. envelhece...


(Antônio Maria. Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002.)

Sobre as relações morfossintáticas do texto, assinale a afirmativa correta.

Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: A questão aborda morfologia (formação de palavras por sufixação), semântica (sentido das palavras), interpretação de texto e referência pronominal, fundamentos essenciais para concursos públicos em Língua Portuguesa.

Alternativa correta: AJustificativa: O uso do sufixo “-inha” (diminutivo) em velhinha e golinha expressa, além de tamanho reduzido, carinho, ternura ou afeto. É chamado de diminutivo afetivo. Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”), o diminutivo serve, com frequência, para atenuar, suavizar ou realçar sentimentos de estima: “velhinha” indica mais do que uma senhora idosa pequena, mas sim uma ideia afetuosa do ser retratado. O mesmo ocorre com “golinha” (parte da roupa), indicando delicadeza.

Alternativa B (Incorreta): Os pronomes possessivos das linhas 4 e 5, no texto, referem-se a “sua golinha de rendas, seu chapéu…”, ou seja, estão ligados diretamente à velhinha individual, não ao termo coletivo “velhinhas”. Regra: pronome possessivo refere-se ao termo imediatamente anterior e mantém coesão textual.

Alternativa C (Incorreta): Dizer que “farda” é sinônimo de “uniforme de afazeres domésticos” distorce o sentido do texto, que usa “farda” em sentido figurado para caracterizar o visual típico das velhinhas, e não um uniforme real. Estratégia de interpretação: sempre confirme se o uso é literal ou metafórico.

Alternativa D (Incorreta):Beliscar” no texto está empregado como comer pequenas porções e NÃO como “causar pequena dor local”. Substituir o termo mudaria completamente o sentido pretendido. Atenção à polissemia: muitos verbos em português têm múltiplos sentidos dependendo do contexto.

Estratégia: Observe sufixos e contexto com atenção a nuances afetivas ou figuradas. Confirme a função dos pronomes sempre pelo termo antecedente explícito ou lógico.

Regra-chave: Sufixos diminutivos não indicam apenas tamanho, mas frequentemente expressam carinho (Cunha & Cintra).

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