Sobre as relações morfossintáticas do texto, assinale a afir...
INSTRUÇÃO: Leia o texto e responda às questões de 01 a 03.
Uma velhinha é uma velhinha
- Não sei se os outros pensam assim, mas, quando vejo uma velhinha e procuro imaginar que ela já tenha sido
- jovem, e tido um namorado, e feito todas as coisas a que o amor obriga, por mais que eu queira, não
- acredito. Ou, se acredito, não entendo. Porque uma velhinha é uma velhinha, tal qual uma
- rosa, que é uma rosa. Dá-me uma ideia do ser humano eterno, que sempre houve e não deixará de haver, com sua golinha de
- rendas, seu chapéu com aplicação de jasmins, seu guarda-chuva, seus sapatos de fivelas. As de Paris
- passeiam, de manhã, em Auteuil, comprando carne para os gatos, queijos e legumes para si. Passeiam seus
- cães, à tardinha, no Bois e, enquanto dão-lhes folga, discutem, umas com as outras, sobre a última e a
- próxima guerra. Queixam-se do frio, da bruma constante e, se um sinal de luz aponta para os lados de
- Versailles, dizem todas, ao mesmo tempo, numa felicíssima esperança: "vá faire beau!" Adoram o sol. Que
- engraçado vê-las ao sol! Ficam mexeriqueiras, rigorosas e bisbilhotam a vida de todas as velhinhas ausentes.
- Voltam à humildade de antes, quando o sol se cobre e a praça esfria outra vez, mandando-as para casa.
- Passava horas vendo as velhinhas de Paris. Na Ferme d'Auteuil, entre cinco e seis da tarde, tomavam seu
- chá, lentamente, e era uma delícia ouvi-las conversar. Mas nunca me consenti acreditar que houvessem sido
- mocinhas, ou que houvessem tirado aquela espécie de farda, um dia sequer, em suas vidas.
- Há pouco tempo, em um café de Friburgo, sentou-se uma velhinha para conversar. Precisava de um
- dinheiro, para caiar a casa e ajudar no casamento de uma neta. Aceitou uma xícara, beliscou de uns doces, e
- foram tantas as perguntas, que acabou contando sua vida. Tivera um namorado, andara fazendo suas
- facilidades com ele. Depois, casou com outro e, mesmo casada, facilitou também, porque não soubera
- resistir aos encantos de um primo, em Magé. Por fim, morreu-lhe o marido e, na campanha por um novo
- casamento, dera-se a duas ou três fantasias pouco recomendáveis, em senhoras viúvas. Isso representou para
- mim um choque muito grande. De repente, as velhinhas de Auteuil deixaram de ser os seres eternos que eu,
- sabiamente, imaginara. Todas se transformaram, violentamente, em gente igual a mim, que comete dos meus
- erros e, como eu, de felicidade em felicidade, de abraço em abraço, de ilusão em ilusão, inebriadamente,
- envelhece...
(Antônio Maria. Benditas sejam as moças: as crônicas de Antônio Maria. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002.)
Sobre as relações morfossintáticas do texto, assinale a afirmativa correta.
Gabarito comentado
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Tema central: A questão aborda morfologia (formação de palavras por sufixação), semântica (sentido das palavras), interpretação de texto e referência pronominal, fundamentos essenciais para concursos públicos em Língua Portuguesa.
Alternativa correta: A – Justificativa: O uso do sufixo “-inha” (diminutivo) em velhinha e golinha expressa, além de tamanho reduzido, carinho, ternura ou afeto. É chamado de diminutivo afetivo. Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (“Nova Gramática do Português Contemporâneo”), o diminutivo serve, com frequência, para atenuar, suavizar ou realçar sentimentos de estima: “velhinha” indica mais do que uma senhora idosa pequena, mas sim uma ideia afetuosa do ser retratado. O mesmo ocorre com “golinha” (parte da roupa), indicando delicadeza.
Alternativa B (Incorreta): Os pronomes possessivos das linhas 4 e 5, no texto, referem-se a “sua golinha de rendas, seu chapéu…”, ou seja, estão ligados diretamente à velhinha individual, não ao termo coletivo “velhinhas”. Regra: pronome possessivo refere-se ao termo imediatamente anterior e mantém coesão textual.
Alternativa C (Incorreta): Dizer que “farda” é sinônimo de “uniforme de afazeres domésticos” distorce o sentido do texto, que usa “farda” em sentido figurado para caracterizar o visual típico das velhinhas, e não um uniforme real. Estratégia de interpretação: sempre confirme se o uso é literal ou metafórico.
Alternativa D (Incorreta): “Beliscar” no texto está empregado como comer pequenas porções e NÃO como “causar pequena dor local”. Substituir o termo mudaria completamente o sentido pretendido. Atenção à polissemia: muitos verbos em português têm múltiplos sentidos dependendo do contexto.
Estratégia: Observe sufixos e contexto com atenção a nuances afetivas ou figuradas. Confirme a função dos pronomes sempre pelo termo antecedente explícito ou lógico.
Regra-chave: Sufixos diminutivos não indicam apenas tamanho, mas frequentemente expressam carinho (Cunha & Cintra).
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