A palavra “que” pode desempenhar diferentes funções na líng...

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Q3951396 Português

TEXTO PARA A QUESTÃO.


Na discoteca do algoritmo


    Eu me preparava para sair, mas, como tinha ainda algum tempo, quis ouvir no celular mesmo uma música que me viera à lembrança. Acessei o YouTube e busquei I Left My Heart in San Francisco, com Tony Bennett. Enquanto amarrava os cadarços, deliciava-me com o veludo da voz do cantor norte-americano no arranjo grandioso que a canção pedia. Era o que eu precisava ouvir, talvez por um estado emocional indefinido que buscasse sua expressão na beleza melancólica que a canção oferecia.


    Fui pegar a mochila, e o YouTube logo engatou outra pérola: Nature Boy, com Nat King Cole. Uau, adoro essa também! Bela emenda com a canção anterior: outro veludo de voz, outro arranjo clássico, a mesma emoção subjacente. E na sequência veio I Put a Spell on You, com Nina Simone. Meu Deus! Assim eu não saio! Sentei-me no sofá, entregue a essa joia na voz da diva que tanto amo. Aí o celular tocou Georgia on My Mind, com Ray Charles. Misericórdia! Quer me matar, algoritmo?


    Imóvel estava, imóvel fiquei, tonto de emoção. E nem tive forças para interromper o aparelho e sair de casa, ante os acordes iniciais da canção seguinte: Perfect Day, com Lou Reed. Eis uma das músicas com maior poder de me derrubar, no sentido de ser tragado pelo mistério das densas emoções. E a mente a me alertar que já perigava atrasar-me para o meu compromisso. Não teria cabimento atribuir o atraso à seleção musical supostamente aleatória do celular...


    Num rompante de responsabilidade, calei justamente o grande Frank Sinatra quando entoava a maravilhosa The World We Knew. Ah, venci o algoritmo, sobrevivi ao seu assédio tão traiçoeiro quanto irresistível! E fui andando a pensar justamente nessa espécie de divindade de nosso tempo, o tal algoritmo. Que serzinho mágico é esse, que consegue, em suas associações, mapear o que se passa em nossa alma? E se a tecnologia já devassa nossa alma, o que de subjetivo e secreto restará em nós?


    O historiador Yuval Harari aponta o algoritmo como o conceito mais importante em nosso mundo: “Se quisermos compreender nossa vida e nosso futuro, devemos fazer todo esforço para compreender o que é um algoritmo e como eles estão ligados a emoções”. O algoritmo no YouTube “sabia” daquela sequência musical emocionante para mim porque eu já acessei as ditas canções em outras oportunidades. Ele só fez reunilas, por um critério temático, e fui ficando de coração exposto.


    Embora tenha sido uma experiência fascinante, resisto o quanto posso a fazer do algoritmo um DJ pessoal. Tão cedo a tal Alexia não entra em minha casa. Sou dos que curtem escolher a dedo o que ouvir — e ainda adepto dos discos —, com direito a desvios repentinos de rota, passando de Billie Holiday a Morais Moreira, por exemplo — coisa que dificilmente o esquemático algoritmo fará.


    Não sei se essa birra é conservadorismo ou resistência ao poder da máquina. Ou se mera ilusão de que, em tempos de vaidades e padronizações, mantenho na alma seu mistério e suas nuances. Mas confesso: venha de onde vier, eleita ou não por mim, música é a chave que sempre me escancara a alma.

Autor: Nivaldo Pereira - GZH (adaptado).

A palavra “que” pode desempenhar diferentes funções na língua portuguesa, dependendo da relação sintática que estabelece na oração. No trecho “música é a chave que sempre me escancara a alma”, o vocábulo destacado classifica-se como: 
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: C

Fundamento decisivo: Em “música é a chave que sempre me escancara a alma”, o “que” retoma o antecedente nominal expresso “a chave” e introduz oração subordinada adjetiva restritiva; por isso, classifica-se como pronome relativo, o que conduz ao gabarito C.

Tema central: Pronome relativo
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque conjunção integrante introduz oração subordinada substantiva e não retoma antecedente nominal. No trecho, o “que” retoma “a chave”; por isso, não pode ser classificado como conjunção integrante.
B
Errada
Está errada porque o “que” não é mero reforço expressivo nem elemento dispensável. Ele é necessário para ligar “a chave” à oração que a caracteriza, o que exclui a leitura de partícula expletiva.
C
Certa
A alternativa C está correta porque o “que” retoma diretamente o nome “a chave” e liga a ele a oração “que sempre me escancara a alma”, que caracteriza e restringe esse antecedente. Essa é a função do pronome relativo: retomar um termo nominal expresso e introduzir oração subordinada adjetiva.
D
Errada
Está errada porque não há relação de causa no trecho. A oração introduzida por “que” não exprime causa; ela apenas caracteriza o nome “a chave”. Portanto, o valor não é causal, mas adjetivo restritivo.
Pegadinha da questão
A banca explora a polissemia de “que” para induzir à marcação automática de conjunção. Aqui, porém, a presença do antecedente “a chave” impede essa leitura e obriga a identificação de pronome relativo.
Dica para questões semelhantes
  • Primeiro procure um antecedente nominal expresso antes de “que”; se ele retoma esse nome, há forte indicação de pronome relativo.
  • Verifique se a oração introduzida por “que” caracteriza ou restringe um substantivo; se isso ocorrer, o valor é adjetivo, não substantivo.
  • Não classifique todo “que” como conjunção integrante: essa classe não retoma antecedente nominal.
  • Teste se o termo é indispensável à ligação entre o nome e a oração subsequente; se for, não se trata de partícula expletiva.

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Comentários

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pronome relativo "que" = pode ser substituído por o qual, a qual, os quais, as quais.

Se conseguimos troca o ''OQUE PELO ISSO'' conjunção integrante.

Pronomes relativos, retoma algo; O qual os quais a qual as quais onde aonde cujo cujos.

Conjunção causal, da ideia de causa.

ERROS? Aceito ajustes...

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