Em relação às características discursivas do texto lido, é I...
INSTRUÇÕES: As questões de 21 a 30 dizem respeito ao conteúdo do TEXTO 1.
Leia-o atentamente antes de respondê-las.
TEXTO 1
Para ler no consultório
Esta é para você. É, você mesmo, que está nessa sala de espera, e mexeu no cesto de revistas velhas ali do ladinho esquerdo do sofá. Você foi lá, catou uma revista bem do fundo, e abriu logo nesta página - que coincidência: justamente a que foi escrita para você.
Você não sabe a confusão que deu quando esta crônica foi publicada. Choveram e-mails indignados. Como pode alguém desperdiçar a última página de uma revista de atualidades para se dirigir a pessoas que só lerão o texto quando esta for uma revista de desatualidades?
Posso ser sincero? Essas pessoas não entendem xongas de sala de espera. Da ansiedade de quem está na iminência de uma obturação. Ou a ponto de um checkup. Ou ainda à beira de uma consulta de rotina. Nesse momento, a única notícia nova que queremos ouvir é "Pode entrar, é a sua vez". Enquanto isso não acontece, tratamos de buscar apoio em quem está na sala há muito mais tempo do que nós: as revistas do cesto.
Por mais que se tente, entretanto, é muito difícil manter a concentração na leitura, quando um olho está no relógio e o outro não desgruda da porta. Às vezes, por azar, os assuntos não ajudam, e você se sente na sala de espera errada. Quantas vezes você não está no consultório do dentista e a revista manda você para o consultório do cirurgião plástico? Não, não, não: não dá para pensar em lipo quando você está envolvido da cabeça aos pés num tratamento de canal.
Leitura de consultório é diferente de leitura de salão de beleza. No cabeleireiro as revistas precisam ter muitas figurinhas, para funcionar como material didático ("Eu quero o meu ASSIM") e de discussão ("Você não acha isso PAVOROSO?").
Já no consultório é o oposto: quanto mais letrinhas, melhor. As revistas da sala de espera servem para você dar a impressão de que está absorto em alguma coisa que não o relógio ou a porta, de modo a erguer uma barreira protetora que impeça o paciente que acabou de chegar - aquele ali! - de alugar seu ouvido para contar toda a sua vida pregressa e seus problemas de saúde, nos mínimos detalhes.
(Como é que eu sei que você não é desses que chegam a uma sala de espera e imediatamente passam a contar seus problemas de saúde nos mínimos detalhes? Ora, porque você foi até o cesto do lado esquerdo do sofá catar esta revista bem lá no fundo.).
Infelizmente, nem todas as pessoas têm essa sua sorte de abrir uma revista na sala de espera e deparar com uma crônica antiga escrita especialmente para elas. Houve muitos casos em que os pacientes leram esta coluna quando a revista ainda era nova. Alguns ficaram um pouco confusos, sem entender como uma revista velha poderia ter previsto tantas coisas que estão acontecendo agora. Outros se deram conta de que esta página só teria toda a graça dali a uns meses, e pela primeira vez na vida se lamentaram por encontrar uma revista nova no consultório.
O quê? A moça da recepção falou "Pode entrar, é a sua vez?". Desculpe, eu estava tão distraído no nosso papo que nem ouvi. Posso pedir um favor antes de você entrar? Coloque esta revista de novo no cesto. Lá no fundo. Isto ainda poderá ser útil para outras pessoas.
RICARDO FREIRE, Ricardo. Para ler no consultório. 20 fev.2009. Para ler no consultório.
Disponível em: <http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,ERT43562-15230,00.html>Acesso em: 08 maio 2013.
Em relação às características discursivas do texto lido, é INCORRETO afirmar que
Gabarito comentado
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Gabarito comentado – Interpretação de texto
Tema central: Características discursivas da crônica – Coerência e Coesão Textual
Esta questão exige reconhecer como o texto se estrutura em termos de sentido e organização e identificar traços típicos da crônica, como a construção da proximidade com o leitor, a expressão de opiniões pessoais e o estilo marcado pela escolha lexical.
Análise da alternativa A (INCORRETA):
A alternativa A afirma: “a delimitação do contexto conduz a restrições que interferem na coerência e coesão plenas.”
No entanto, isso está errado. Segundo gramáticos como Celso Cunha & Lindley Cintra e Ingedore Koch, delimitar o contexto é fundamental para que o texto seja compreendido e mantenha coerência e coesão. No caso da crônica, situar o leitor em um ambiente típico (a sala de espera) não restringe negativamente, mas potencializa o sentido, guiando o leitor de forma clara.
Portanto, a alternativa A está INCORRETA porque delimitar o contexto favorece e fortalece a coerência textual.
Análise das alternativas corretas:
B) O locutor da crônica é o próprio autor, assumindo voz pessoal e subjetiva ao compartilhar opiniões e percepções. Isso é um traço típico do gênero, reforçado por frases como: “Posso ser sincero?”
C) O leitor é envolvido e convidado à interação, por meio do uso do vocativo (“Esta é para você”), perguntas diretas e apelos. O texto estabelece um diálogo sutil, tornando o leitor ativo.
D) O estilo da crônica é marcado pela escolha de palavras informais, expressões coloquiais e estruturas sintáticas simples, criando identificação e leveza, o que define a autoria e o tom do texto.
Conceitos importantes:
Coerência é a lógica e o sentido do texto como um todo.
Coesão refere-se aos elementos linguísticos que conectam as partes desse texto (pronomes, conjunções, referência a tópicos já apresentados).
Dicas para provas: Sempre desconfie de alternativas que tragam ideias negativas sem respaldo do texto, como “interferir na coerência”. Questões assim costumam apresentar generalizações falsas ou expressões que se opõem ao bom funcionamento textual.
Resumo: A alternativa A está incorreta porque a delimitação do contexto aprofunda e fortalece a coesão e a coerência da crônica. As demais estão corretas, retratando as verdadeiras características do gênero.
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