No texto 2, Walnice Galvão, estudiosa da obra de Euclides d...

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Q3768897 Português
Leia o texto abaixo para responder à questão.


A 1ª edição, dada à luz em 1902 pela Laemmert, do Rio de Janeiro, já alarmou seu Autor devido ao excesso de erros gráficos, conforme queixa ao amigo e mentor Francisco Escobar em carta datada de 19.10.1902.

Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus “Sertões”; fui lê-lo com mais cuidado – e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada página o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente… Um horror! Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro? Manda-me dizer daí algo a respeito. Imagina que lá encontrei á facão, á pranchada, braço á braço, tempos á tempos, etc. etc.

Não te posso dizer como fiquei. Por fim – abrindo, ao acaso, depois do jantar, uma página, – encontrei isto:

– Não iludiu á história…

Não te descrevo o que houve! Quer isto dizer que estou à mercê de quanto meninote erudito brune as esquinas; e passível da férula brutal dos terríveis gramatiqueiros que passam por aí os dias a remascar preposições e a disciplinar pronomes!

Felizmente disseram também que o Victor Hugo não sabia francês.

Vou escrever ao Laemmert para reduzir quanto possível a 1ª edição, se houver tempo.

„ férula – autoridade rígida ou severa

„ brunir – lustrar, polir

„ remascar – mascar novamente


Galvão, Walnice Nogueira, Euclides da Cunha, Edição Crítica de Os Sertões, ed. Brasiliense, 1985, São Paulo, p. 18.
No texto 2, Walnice Galvão, estudiosa da obra de Euclides da Cunha, analisa criticamente o livro Os Sertões.

Assinale alternativa cuja inferência é válida.
Alternativas

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Tema central: Interpretação de texto – Inferência

A questão avalia a capacidade de inferir ideias implícitas no texto. Segundo Celso Cunha & Lindley Cintra (Nova Gramática do Português Contemporâneo), inferir é deduzir informações não explícitas a partir de elementos contextuais e expressivos do texto.

Análise da alternativa correta (D):

A alternativa D afirma: “O autor tinha dúvidas de que os desvios gramaticais, ou descuidos, prejudicassem o valor de seu livro.”
O texto traz a preocupação de Euclides da Cunha com os erros gramaticais em sua obra. Ele evidencia sua dúvida no trecho: “Quem sabe se isto não irá destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro?”. Pela interpretação textual, essa frase demonstra incerteza e angústia acerca do impacto dos erros. 

Como identificar e justificar: O autor não afirma categoricamente que o valor será destruído, mas mostra seu receio. Em termos de técnica de interpretação, a estrutura interrogativa e o uso de expressões como “quem sabe” reforçam o caráter de dúvida.

Análise das alternativas incorretas:

A) Afirmar que Francisco Escobar era "gramatiqueiro" é incorreto: o texto apenas mostra que ele advertiu Euclides sobre “descuidos”, não o caracteriza como crítico obsessivo por gramática.

B) Generalizar o momento histórico como sendo definido só pela crítica gramatical extrapola o texto. Não há sustentação para tal afirmação.

C) O autor utiliza ironia ao citar Victor Hugo. Não significa que desconhece a norma culta, mas sim que até grandes escritores são criticados; é uma defesa retórica.

E) Dizer que a crítica gramaticista “nunca será válida” para Euclides não se sustenta, pois ele mesmo demonstra receio em relação aos erros encontrados.

Estratégias para provas: Identifique sempre expressões indiciárias de dúvida (“quem sabe”) e de ironia. Atenção às opções que exageram ou generalizam o que está no texto – são pegadinhas comuns em questões de interpretação.

Resumindo: A alternativa D é a única que se apoia numa inferência possível, considerando o receio do autor quanto aos efeitos dos descuidos gramaticais em sua obra.

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Comentários

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“O mentor de Euclides, Francisco Escobar, era gramatiqueiro.”

Inferência inválida.

O texto apenas mostra que Francisco Escobar apontou descuidos gramaticais na obra. Isso não o caracteriza como “gramatiqueiro” (alguém excessivamente preso à norma). Quem usa essa expressão de forma crítica é o próprio Euclides, ao se referir a possíveis leitores severos, e não a Escobar.

“Naquele momento histórico, a crítica literária se resumia ao conteúdo gramaticista.”

Inferência inválida.

O texto expressa o medo pessoal de Euclides de ser atacado por erros gramaticais, mas não afirma que toda a crítica literária da época se limitava a isso. Generaliza algo que o texto não sustenta.

“Euclides da Cunha não conhecia norma culta assim como Victor Hugo também não dominava o francês.”

Inferência inválida.

Ao citar Victor Hugo (“Felizmente disseram também que o Victor Hugo não sabia francês”), Euclides usa ironia e consolo, não uma afirmação literal. Não se pode inferir que nem Euclides nem Victor Hugo desconheciam suas línguas.

“O autor tinha dúvidas de que os desvios gramaticais, ou descuidos, prejudicassem o valor de seu livro.”

Inferência válida (alternativa correta).

Isso está explicitamente sugerido no texto quando Euclides pergunta:

A pergunta revela insegurança e dúvida sobre o impacto dos erros gramaticais no valor da obra.

“A crítica gramaticista nunca será válida para Euclides da Cunha.”

Inferência inválida.

Apesar do tom irônico e angustiado, Euclides leva a crítica gramatical muito a sério, a ponto de querer reduzir a tiragem da primeira edição. Logo, não se pode afirmar que ele a considere inválida.

Ela é a única que respeita fielmente o conteúdo e o tom do texto, sem extrapolações.

Fonte: GPT

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