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Q2671874 Português

A intensa busca da perfeição


Nos enganaram. É isso mesmo. Nem tudo termina em beijo. Quase nada, na verdade. E por que que insistimos que sim? Talvez eu não devesse atribuir a dúvida a todos nós. Só a mim mesma já está de bom tamanho.

Faço parte da massa de pessoas viciadas em comédias românticas do tipo água-com-açúcar. Sabe que aqueles filmes podem fazer um mal e tanto? Tudo é sempre tão perfeito, tão maravilhoso! E, claro, no meio do filme há sempre uma crise entre o casal e, no último quarto, no final, tudo começa a se ajeitar. Tudo caminhando para o grande final. O beijo! A câmera fecha no casal se beijando na chuva ou na praia, ou entre as flores. Ou ainda todas as anteriores ao mesmo tempo.

O cara é sempre bonito, gostoso, simpático, sorridente, carinhoso, cheiroso, bom cozinheiro, bemvestido, inteligente - todas as variáveis existentes. A moça é sempre maravilhosa, determinada, inteligente, bem-humorada, bem-vestida, delicada, meiga, romântica - e todas as outras variáveis existentes. Então, só o que posso concluir é que, afinal, nos enganaram.

Nem todas somos maravilhosas, meigas, determinadas e tudo o mais ao mesmo tempo. E, acreditem, nem todos eles são lindos, gostosos e - ao mesmo tempo - inteligentes, simpáticos e tudo o mais... E aí, como é que fica a vida real? Como é que nos mostram tudo isso e, depois - como se fosse um belo prêmio de consolação - nos dão isso. Acho que acabo de descobrir por que os filmes românticos terminam quando o casal dá o beijo definitivo. É porque, a partir daí, começa a realidade. E eles não vão querer nos mostrar a realidade. Não vende.

Daí, por que esses filmes podem fazer um mal e tanto. Ficamos esperando a perfeição. E ela deve ser realmente como nos filmes. Não aceitamos qualquer amostra barata. E então, um tem mau hálito, outro uma barriguinha, outro usa meia de ursinho, outro é um pouco lerdo, outro usa aparelho, outro gosta do É o Tchan! E, se por acaso vocês saem – se é que se chega a tal ponto - nada de passeios ao luar, velas, beijos debaixo da chuva. No dia seguinte, nada de telefonemas, mensagens ou e-mails apaixonados, nem mesmo - muito menos - flores.

Então, quando parei para pensar nisso, depois de uma maratona de três desses retratos da perfeição, achei que talvez devêssemos nunca mais assistir a eles. Greve às comédias românticas! Mas, no fim, acho que isso não resolveria. Devemos, isso sim, deixar de ser tão covardes. Levantar do sofá, desligar a TV e dar a cara a tapa. É tão cômodo sentar e dizer "nada é bom o bastante para mim" e não correr o risco de se machucar. Nada mais perfeito do que um amor de verdade, com todas as suas falhas e imperfeições. Com todas as brigas, encontros e desencontros, mau hálito e meias de ursinho. Sabe por quê? Porque, no fim, descobrimos que somos perfeitos pelo simples fato de não o sermos.


Annita Veslasque. Publicado no jornal Estado de Minas 29.03.2005

De acordo com as características estruturais do texto, percebe-se que ele busca, em sua totalidade:

Alternativas

Gabarito comentado

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Tema central: Interpretação de texto e identificação do tipo textual predominante. A habilidade cobrada é perceber qual modelo de organização textual está em foco: narrativo, descritivo, dissertativo, expositivo ou injuntivo.

Justificativa da alternativa correta (E):

No texto, a autora analisa criticamente um fenômeno contemporâneo – a busca da perfeição inspirada por comédias românticas – e discute suas implicações na vida real. Essa abordagem é típica do texto dissertativo-argumentativo, que tem como objetivo central debater e refletir sobre um tema atual. Repare como são apresentados exemplos, opiniões, questionamentos e uma conclusão crítica: elementos clássicos desse tipo textual, conforme orienta Bechara em sua "Moderna Gramática Portuguesa". Logo, “discutir um tema atual” é a alternativa que se adequa à intenção global do texto.

Análise das alternativas incorretas:

A) narrar acontecimentos apenas: O texto não apresenta sequência de fatos nem foco em ações; usa exemplos como apoio argumentativo.
B) expor uma situação pessoal somente: O texto parte de vivências pessoais, mas propõe reflexão social e universal, indo além do individual.
C) descrever situações polêmicas tão-somente: Não há mero retrato de cenários, mas análise e discussão crítica.
D) instruir o leitor a respeito de algo: O texto não visa ensinar como fazer algo, mas provocar reflexão e mudança de atitude.

Estratégias e dicas:

- Identifique sempre verbetes de opinião (“acho”, “acredito”, “devemos”) para reconhecer textos dissertativo-argumentativos.
- Observe o propósito do texto; aqui, não há apenas exposição ou relato: há reflexão sobre um tema atual e defesa de uma ideia.
- Lembre-se das definições de tipos textuais presentes em Cunha & Cintra: dissertar é “apresentar, avaliar, refletir e discutir ideias”.

Resumo: Para questões de interpretação, sempre relacione o objetivo do texto ao tipo textual indicado. Assim, evita armadilhas e responde com segurança!

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