Entrou na cidade por acaso. A mesma ideia está repr...
Entrou na cidade por acaso. Cidade não, cidadezinha, um ovo de codorna, porque era tão pequenina que dava dó. Cinco ruas, ou quatro, e uma incompleta, uma bodega, um bar, uma padaria e a agência do correio, onde o funcionário dormia o dia todo por falta de carta e telegrama. Quase ninguém sabia ler, pudera. Missa, uma vez por mês, quando o padre da paróquia vizinha aparecia e, assim mesmo, com pressa. A praça era tão miúda que a igreja lhe tomou toda a área. Na feira, qualquer carneiro que se abatesse, em lugar da vaca, daria para a população inteira e ainda se jogaria a sobra para os cachorros, que não eram tantos assim. Urubu não aparecia, porque a carniça era diminuta, não dando para satisfazer a um bando, sendo melhor parar e pairar em lugar maior. A prefeitura funcionava numa casa alugada, duas salas e o sanitário no fundo do quintal, que, por muito tempo, foi a única obra erguida no centro urbano, e, assim mesmo, porque o prefeito sofria de incontinência urinária. Mas o motorista sentiu alguma coisa o atraindo, uma força o puxando para dentro da cidade, talvez um recado para dar, algo velho, que por ali ainda existisse, para comprar, talvez encomenda de algum doutor da capital, e entrou, com seu Opala, carro de praça, ruas adentro, nenhuma calçada. Ninguém melhor para fazer favor que o pessoal do interior. Não sabia ao certo por que deixou a estrada e entrou. (Wladimir Souza Carvalho. Valor do cão da rapariga do cabo. In: Feijão de Cego. Curitiba: Juruá, 2010. p. 131)
A mesma ideia está reproduzida, com outras palavras, em:
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Gabarito comentado
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TEMA CENTRAL: Interpretação de Texto – identificação de ideia principal, relação de sentido e paráfrase.
Nesta questão, é necessário reconhecer no texto a ideia central de uma ação realizada por acaso: “Entrou na cidade por acaso.” O objetivo é encontrar, entre as alternativas, a que reproduz esse sentido usando outras palavras (paráfrase).
Pela norma-padrão e pela orientação de gramáticos como Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), a competência de interpretação envolve identificar a equivalência de sentido entre enunciados diferentes, mas referidos ao mesmo conteúdo.
Justificativa da alternativa correta (E):
Alternativa E – “Não sabia ao certo por que deixou a estrada e entrou.”
Esta frase mostra o mesmo sentido de acaso, pois indica ausência de motivo claro ou intenção definida. Ou seja, o ato de “entrar na cidade” foi realizado de modo despretensioso, casual. Esta alternativa reescreve, em outras palavras, a ideia principal do trecho solicitado – trata-se, pois, de uma paráfrase fiel ao sentido original.
Análise das alternativas incorretas:
A) “... onde o funcionário dormia o dia todo por falta de carta e telegrama.”
B) “... quando o padre da paróquia vizinha aparecia e, assim mesmo, com pressa.”
C) “Urubu não aparecia, porque a carniça era diminuta, não dando para satisfazer a um bando ...”
D) “A prefeitura funcionava numa casa alugada, duas salas e o sanitário no fundo do quintal...”
Essas alternativas trazem informações secundárias sobre a cidade: descrevem suas características, funcionamento e limitações, mas não apresentam a ideia de entrada casual ou acidental. Assim, não são paráfrases do trecho citado.
Dica Concursal: Quando uma questão pede identificação de paráfrase, foque no sentido global (e não em palavras isoladas); busque na alternativa aquela que mantém o núcleo do significado, mesmo que a estrutura verbal seja diferente.
Resumo da estratégia: Localize a ideia principal do enunciado, despreze detalhes secundários, e busque a alternativa que mantém essa ideia sob nova formulação linguística – eis a essência da paráfrase e da interpretação madura exigida em provas para Técnico de Controle Externo.
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Comentários
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Minha decisão por marcar a letra E foi pelo seguinte motivo: "Entrou na cidade por acaso" me remete situação de ocasionalidade.
Passei a ver o que as alternativas remetem.
a) lugar
b) pessoa/modo
c) "pessoa"
d) lugar
e) ocasionalidade
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