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Q2605102 Português
Os cães engarrafados

     “Nunca vi boa amizade nascer em leiteria”, disse certa vez Vinicius de Moraes, inveterado beberrão, para quem o melhor termômetro de afetos era uma garrafa de uísque – uma, no caso, é modo de dizer, pois melhor se fossem duas, três, quatro. “Uísque é o cachorro engarrafado”, concluiu, certamente depois de algumas doses. Não é improvável que esse diagnóstico etílico tenha surgido durante um pileque com Rubem Braga, outro voraz consumidor de malte.
     Além da dedicação às garrafas, os dois amigos tinham vários pontos em comum: nasceram no mesmo 1913, exerceram postos diplomáticos e foram grandes gozadores dos prazeres da vida, apaixonando-se com tremenda facilidade. Braga, dos nossos maiores cronistas, fez também poesia. Vinicius, dos nossos maiores poetas, também escreveu crônica. E os dois foram, cada um ao seu modo, renomados anfitriões.
    Em 1951, quando Vinicius retornou de Los Angeles, onde atuava como vice-cônsul, trouxe nada mais que 480 garrafas de uísque, divididas em 40 caixas. Era, certamente, o maior estoque de uísque do Rio de Janeiro. Não demorou para que sua casa, no Leblon, virasse um ponto de encontro da intelectualidade carioca.
    Em Ipanema, a famosa cobertura de Rubem Braga vivia destrancada. O amigo que quisesse desfrutar daquele jardim suspenso precisava só pegar a escadinha do décimo segundo andar e abrir a porta. O uísque estava lá à disposição. Braga, nem sempre – às vezes, dependendo de seu humor, sequer se levantava da rede para receber a visita.
   “Rubem Braga é, sabidamente, um conhecedor de passarinhos”, começa Vinicius com a advertência. Conhece tudo de tico-tico, curió, sanhaço, cardeal, sabiá, “mas em matéria de canário trata-se de um otário completo e acabado”. O cronista vinha pela Cinelândia quando topou com um vendedor. Ele oferecia um casal de canários numa gaiola “dividida por uma separação levadiça em dois compartimentos, um para o macho, outro para a fêmea”. A graça era abrir a portinhola do macho, deixá-lo voar livremente e vê-lo voltar assim que a fêmea piasse. O rapaz fez uma demonstração do número e convenceu o cliente.
    Decerto Braga se emocionou com aquele espécime masculino que trocava a liberdade pela companhia da amada. Chegando em casa, quis rever o espetáculo. “E lá se foi o canarinho pelo azul afora, em lindas evoluções”, até que a fêmea o chamasse. Ele voltou e ficou parado diante da portinhola, sem entrar. Braga, apreensivo, tentou atraí-lo com uma suculenta folha de alface, mas o bicho não bicou a isca. E a fêmea, no descuido do cronista que procurava um encaixe para a verdura, “fez força com o biquinho e acabou por erguer a portinhola”. Dali para o Jardim Botânico não teve nem graça. “Canário, hein Braguinha?”, cutucou o amigo.
    De Braga para Vinicius, a primeira homenagem veio durante a temporada norte-americana do poeta, período em que ficou cinco anos sem retornar para o Brasil. Do Rio, o colega enviou-lhe um Bilhete para Los Angeles”, um dos poucos de sua diminuta lavra de poemas. Os versos de escárnio são puro carinho de mãos ásperas. “Só queres amor e ócio/capadócio!” e “Tanto mal que já fizeste/cafajeste!”, querem dizer, na verdade, “Deus te dê vida e saúde/em Hollywood!”.
   Poucos meses depois de Vinicius morrer, em 1980, Braga voltou a escrever para ele, agora com uma notícia grave: a primavera tinha chegado e aquela era a primeira, desde 1913, sem a participação do poeta. Sabendo do hábito epistolar dos amigos, “Recado de primavera” fica ainda mais comovente. “Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias.” O mar estava virado, e da varanda do cronista era possível ver “uma vaga de espuma galgar o costão sul da ilha das Palmas” – tudo isso, diz, são “violências primaveris”. Um tico-tico, “com uma folhinha seca de capim no bico”, começara a construir seu ninho. E as “moitas de azaleias e manacás em flor” traziam promessas da vida. “O tempo vai passando, poeta”, arremata Rubem. “Chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui – a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.”

(TAUIL, Guilherme. Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/. Acesso em: 22/03/2024.)
Reproduzem-se, nas alternativas a seguir, trechos do texto com duplas de palavras sublinhadas. É correto afirmar que a alternativa que dispõe uma dupla de palavras sublinhadas que NÃO se acentuam pela mesma razão se dá em: 
Alternativas

Gabarito comentado

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TEMA CENTRAL: Esta questão aborda acentuação gráfica – regra ortográfica fundamental em concursos, especialmente para cargos administrativos, pois evidencia conhecimento das normas da língua culta.

ALTERNATIVA CORRETA: A

Na alternativa A, temos as palavras: escárnio e ásperas. Veja a diferença:

- Escárnio: paroxítona terminada em ditongo (ní-o). A regra é: acentuam-se as paroxítonas terminadas em ditongo (como em história, colégio).
- Ásperas: proparoxítona (sílaba tônica na antepenúltima). Todas as proparoxítonas são acentuadas (como em médico, público).

Portanto, são motivos diferentes de acentuação. De acordo com Bechara (“Moderna Gramática Portuguesa”), essa distinção é básica para resolver questões desse tipo.

ANÁLISE DAS ALTERNATIVAS INCORRETAS:

B) é e trêsMonossílabos tônicos terminados em “e” ou “es”. Ambos acentuados pela mesma regra.
C) matéria e otárioParoxítonas terminadas em ditongo crescente (“ia”, “io”). Também acentuadas pelo mesmo critério.
D) diagnóstico e etílico – Ambas são proparoxítonas, acentuadas pelo mesmo motivo.

ESTRATÉGIA PARA A PROVA: Ao identificar uma questão dessa natureza, leia atentamente cada palavra sublinhada e classifique-as (oxítona, paroxítona ou proparoxítona). Em seguida, lembre-se das terminações, pois essas determinam a acentuação das paroxítonas.

Evite a “pegadinha” de concentrar-se apenas na sílaba tônica sem observar o tipo de terminação ou regra específica.

Resumo:
A é correta porque escárnio (paroxítona/ditongo) e ásperas (proparoxítona) não seguem a mesma regra de acentuação.

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Comentários

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Fui por eliminação, pois a letra A apresenta a palavra escárnio, que a depender da banca, pode ser Paroxítona terminada em ditongo ou Proparoxítona.

a) Gabarito. (Paroxítona + Proparoxítona)

b) Duas palavras acentuadas pela regra das monossílabas;

c) Regra das paroxítonas terminadas em ditongo;

d) Regra das proparoxítonas.

fui por eliminação, visto q escárnio apresenta um ditongo crescente. marquei letra A.

fui por eliminação, cheguei a conclusão a letra A

A banca não decide quando considera proparoxítona ocasional ou não, em várias outras questões de 2024 ela considera...

Se a banca não menciona uma proparoxitona ocasional, geralmente eu sigo da seguinte forma, na duvida se é ditongo ou hiato: quando é ditongo decrescente "VOGAL+semivogal" é sempre ditongo mesmo, quando é ditongo crescente, "semivogal+VOGAL" pode ser ditongo ou hiato... aprendi assim.

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