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Q3839566 Português
Direito à educação: o que significa, na prática, garantir vaga para todos?


      Quando se fala em direito à educação, é comum imaginar uma sala de aula com carteiras alinhadas, um quadro na frente e um professor disposto a ensinar. Em muitos discursos oficiais, “garantir o direito” aparece resumido a uma frase: “há vaga para todas as crianças em idade escolar”. Mas basta olhar com um pouco mais de cuidado para perceber que, entre ter vaga na escola e, de fato, aprender, existe um longo caminho.

        Garantir vaga é o ponto de partida, não a linha de chegada. No papel, o município pode afirmar que todas as crianças estão matriculadas. Na prática, porém, é preciso perguntar: todas conseguem chegar à escola todos os dias? Em áreas rurais, o transporte escolar pode significar caminhões adaptados, estradas de terra e trajetos longos. Nas periferias urbanas, o problema pode ser a distância a pé, a insegurança no caminho, o custo do ônibus. A vaga existe, mas o acesso até ela nem sempre é simples.

        Outra dimensão é a permanência. Uma criança que chega à escola, mas sente fome, pode até ocupar uma carteira, mas dificilmente conseguirá se concentrar. A merenda escolar, muitas vezes vista apenas como um detalhe administrativo, é, na vida real, o que mantém alguns estudantes de pé. Há também quem precise trabalhar para ajudar em casa; nesse caso, conciliar estudos e jornada de trabalho transforma o direito à educação em um malabarismo diário.

      Quando se fala em “vaga para todos”, é preciso incluir aqueles que historicamente foram deixados de fora: estudantes com deficiência, pessoas que moram em áreas de difícil acesso, jovens e adultos que não concluíram o ensino básico na idade “esperada”. Não basta abrir uma sala e colocar todos juntos. É necessário pensar em acessibilidade, adaptações curriculares, materiais diferenciados, profissionais de apoio, horários flexíveis. A igualdade de direito não significa tratar todos da mesma forma, e sim garantir que cada um tenha condições reais de aprender.

       A qualidade do ensino é outra peça indispensável. Um prédio com infiltrações, banheiros quebrados, biblioteca trancada e aulas constantemente interrompidas não cumpre o que o direito à educação promete. Professores sem formação adequada, turmas superlotadas e falta de materiais didáticos também transformam a vaga em uma promessa pela metade. A presença física na escola é importante, mas não adianta sentar-se na carteira e sair de lá sem compreender o que foi ensinado.

         Por fim, garantir vaga significa ouvir quem ocupa essas vagas. Estudantes que não se sentem respeitados, que sofrem preconceito, que não se reconhecem nos conteúdos trabalhados podem até estar oficialmente “dentro” da escola, mas, subjetivamente, continuam do lado de fora. Uma escola que não escuta suas vozes corre o risco de ser apenas um prédio com gente dentro, e não um espaço de formação.

       Direito à educação, portanto, não se esgota na matrícula ou na lista de chamada preenchida. Significa assegurar acesso, permanência e aprendizagem em condições dignas, para pessoas diferentes, em realidades variadas. Entre o discurso bonito dos documentos e o cotidiano nem sempre bonito das salas de aula, há um trabalho silencioso e contínuo que define se a vaga é um número em uma planilha ou uma oportunidade real de transformar vidas.


Fonte: BANCA EXAMINADORA
No trecho “conciliar estudos e jornada de trabalho transforma o direito à educação em um malabarismo diário”, a expressão “malabarismo diário” pode ser entendida como uma
Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual de expressão figurada: no trecho "Há também quem precise trabalhar para ajudar em casa; nesse caso, conciliar estudos e jornada de trabalho transforma o direito à educação em um malabarismo diário.", "malabarismo diário" é usado conotativamente, como metáfora de equilíbrio difícil entre estudo e trabalho. Esse valor semântico afasta leitura literal, elogiosa, comparativa explícita ou de impossibilidade absoluta, sustentando a alternativa D.

Tema central: sentido figurado contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque impõe leitura literal incompatível com o contexto. O trecho trata de dificuldades sociais e educacionais de quem precisa estudar e trabalhar, não de exercícios físicos nem de disciplina de Educação Física.
B
Errada
Está errada porque altera o valor semântico-discursivo da expressão. "Malabarismo diário" não elogia organização perfeita do tempo; indica esforço árduo para lidar com exigências concorrentes em situação difícil.
C
Errada
Está errada por classificar incorretamente a figura de linguagem. O trecho não traz comparação explícita marcada por "como"; ao chamar a situação de "malabarismo diário", o texto emprega metáfora, sem conectivo comparativo expresso.
D
Certa
A alternativa D está correta porque traduz com precisão o valor semântico da expressão no trecho. O texto discute obstáculos reais à permanência na escola, e, nesse contexto, "malabarismo diário" nomeia figuradamente a necessidade de equilibrar tarefas e responsabilidades simultâneas com dificuldade e esforço contínuo. Não há sentido literal nem elogioso: há a representação de uma conciliação precária entre estudo e trabalho.
E
Errada
Está errada porque exagera o sentido do trecho até transformá-lo em impossibilidade absoluta. O texto aponta dificuldade concreta e cotidiana para conciliar estudo e trabalho, não afirma que isso seja impossível em qualquer contexto nem constrói uma hipérbole universalizante.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar "malabarismo" em sentido literal e, mesmo percebendo a linguagem figurada, trocar metáfora por comparação explícita ou por exagero de impossibilidade absoluta.
Dica para questões semelhantes
  • Leia a expressão dentro do problema concreto apresentado pelo texto; aqui, o contexto é de permanência escolar dificultada por trabalho e outras barreiras.
  • Se a expressão aproxima campos de sentido sem usar conectivo como "como", o valor tende a ser metafórico, não de comparação explícita.
  • Verifique se o texto indica dificuldade, elogio ou impossibilidade total; não transforme intensidade expressiva em sentido absoluto sem apoio textual.

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Comentários

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Comparação: relação de comparação entre dois ou mais termos, separados por conjunção.

Metáfora: comparação implícita entre dois ou mais termos.

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