Com base na leitura atenta do texto, assinale a alternativa...
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Quando me surpreendo ao fundo do espelho assusto-me. Mal posso acreditar que tenho limites, que sou recortada e definida. Sinto-me espalhada no ar, pensando dentro das criaturas, vivendo nas coisas além de mim mesma. Quando me surpreendo ao espelho não me assusto porque me ache feia ou bonita. É que me descubro de outra qualidade. Depois de não me ver há muito quase esqueço que sou humana, esqueço meu passado e sou com a mesma libertação de fim e de consciência quanto uma coisa apenas viva. Também me surpreendo, os olhos abertos para o espelho pálido, de que haja tanta coisa em mim além do conhecido, tanta coisa sempre silenciosa.
Trecho
LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Gabarito comentado
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Gabarito Comentado — Professor Artes: Interpretação de Texto
Tema central: A questão envolve interpretação de texto, exigindo percepção fina dos conceitos de identidade, autoimagem e autodescobrimento segundo a narrativa de Clarice Lispector, que explora estados internos e o confronto entre aparência e essência.
Justificativa da alternativa correta (B):
A alternativa B, ao afirmar que o espanto da narradora diante do espelho revela uma experiência de autodescobrimento marcada pela ruptura com a noção habitual de identidade estável e finita, sintetiza o efeito de sentido do texto. O trecho destaca expressões como “me surpreendo ao fundo do espelho”, “mal posso acreditar que tenho limites” e “sinto-me espalhada no ar”, indicando uma percepção que ultrapassa a forma física, acordando para uma subjetividade ampla e mutável — fenômeno muito caro à obra de Clarice Lispector, e segundo autores como Benedito Nunes, caracteriza a fluidez e a desconstrução do eu.
A linguagem introspectiva aponta para o deslocamento do foco tradicional (identidade fixa) para uma compreensão expandida e dinâmica da existência. Portanto, escolher a alternativa B demonstra atenção à palavra-chave ruptura e identifica o momento do texto como de autodescobrimento e não de conflito externo.
Análise das alternativas incorretas:
A) Acentua “angústia” e “oposição”, mas o texto não expressa qualquer sofrimento ou dualidade corpo/alma de modo explícito.
C) Sugere desejo de fuga dos limites corporais para uma existência idealizada — não há indício de busca por idealização, apenas percepção ampliada do “eu”.
D) Afirma que o espelho valida memória e identidade; na verdade, ele gera estranhamento quanto à própria humanidade e limites.
E) Foca em lembranças do passado e reconstrução da memória individual, o que não aparece no trecho analisado.
Dicas de estratégia: Em questões assim, busque as palavras-chave do texto, observe estados emocionais narrados (surpresa, assombro, consciência de limite) e leia atentamente propostas de conflito inexistentes nas alternativas.
Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, a interpretação exige rigor na busca da ideia principal e conexão do texto aos termos propostos nas alternativas. Fique atento a exageros não sustentados pelo texto.
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O espanto da narradora diante do espelho revela uma experiência de autodescobrimento marcada pela ruptura com a noção habitual de identidade estável e finita.
A narradora se sente espantada com sua aparência já que percebe que está tão normal estável e finita.
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