Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens
uma tribo muito feliz. Como não havia solo para plantar, só um
emaranhado de fios branquinhos e fofos como algodão-doce,
as pessoas se alimentavam da carne de aves abatidas com
flechas, que faziam amarrando em feixe uma porção dos fios
que formavam o chão. De vez em quando, o chão dava umas
sacudidelas, a planície inteira corcoveava e diminuía de tamanho,
como se alguém abocanhasse parte dela.
Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador errou a pontaria
e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele viu que se abrira
uma fenda, através da qual pôde ver que lá embaixo havia outro
mundo.
Espantado, o caçador tampou o buraco e foi embora. Não contou
sua descoberta a ninguém.
Na manhã seguinte, voltou ao local da passagem, trançou uma
longa corda com os fios do chão e desceu até o outro mundo.
Foi parar no meio de uma aldeia onde uma linda índia lhe deu as
boas-vindas, tão surpresa em vê-lo descer do céu quanto ele de
encontrar criatura tão bela e amável. Conversaram longo tempo
e o caçador soube que a região onde ele vivia era conhecida por
ela e seu povo como "o mundo das nuvens", formado pelas águas
que evaporavam dos rios, lagos e oceanos da terra. As águas
caíam de volta como uma cortina líquida, que eles chamavam de
chuva. "Vai ver, é por isso que o chão lá de cima treme e encolhe",
ele pensou. Ao fim da tarde, o caçador despediu-se da moça,
agarrou-se à corda e subiu de volta para casa. Dali em diante,
todos os dias ele escapava para encontrar-se com a jovem. Ela
descreveu para ele os animais ferozes que havia lá embaixo. Ele
disse a ela que lá no alto as coisas materiais não tinham valor
nenhum.
Um dia, a jovem deu ao caçador um cristal que havia achado
perto de uma cachoeira. E pediu para visitar o mundo dele. O
rapaz a ajudou a subir pela corda. Mal tinham chegado lá nas
alturas, descobriram que haviam sido seguidos pelos parentes
dela, curiosos para ver como se vivia tão perto do céu.
Foram todos recebidos com uma grande festa, que selou a
amizade entre as duas nações. A partir de então, começou um
grande sobe-e-desce entre céu e terra. A corda não resistiu a
tanto trânsito e se partiu. Uma larga escada foi então construída
e o movimento se tornou ainda mais intenso. O povo lá de baixo,
indo a toda a hora divertir-se nas nuvens, deixou de lavrar a terra
e de cuidar do gado. Os habitantes lá de cima pararam de caçar
pássaros e começaram a se apegar às coisas que as pessoas
de baixo lhes levavam de presente ou que eles mesmos desciam
para buscar.
Vendo a desarmonia instalar-se entre sua gente, o caçador
destruiu a escada e fechou a passagem entre os dois mundos.
Aos poucos, as coisas foram voltando ao normal, tanto na terra
como nas nuvens. Mas a jovem índia, que ficara lá em cima com
seu amado, tinha saudade de sua família e de seu mundo. Sem
poder vê-los, começou a ficar cada vez mais triste. Aborrecido, o
caçador fazia tudo para alegrá-la. Só não concordava em reabrir a
comunicação entre os dois mundos: o sobe-e-desce recomeçaria
e a sobrevivência de todos estaria ameaçada.
Certa tarde, o caçador brincava com o cristal que ganhara da
mulher. As nuvens começaram a sacudir sob seus pés, sinal
de que lá embaixo estava chovendo. De repente, um raio de
sol passou pelo cristal e se abriu num maravilhoso arco-íris que
ligava o céu e a terra. Trocando o cristal de uma mão para outra,
o rapaz viu que o arco-íris mudava de lugar.
- Iuupii! - gritou ele. - Descobri a solução para meus problemas!
Daquele dia em diante, quando aparecia o sol depois da chuva,
sua jovem mulher escorregava pelo arco-íris abaixo e ia matar a
saudade de sua gente. Se alguém lá de baixo se metia a querer
visitar o mundo das nuvens, o caçador mudava a posição do cristal
e o arco-íris saltava para outro lado. Até hoje, ele só permite a
subida de sua amada. Que sempre volta, feliz, para seus braços.
No trecho “Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador
errou a pontaria e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele
viu que se abrira uma fenda, através da qual pôde ver que lá
embaixo havia outro mundo” (2.º parágrafo), entre “atirar a flecha”
e “abrir uma fenda”, há uma relação de: