Meu amigo Adamastor, o gigante, me apareceu hoje de
manhã, muito cedo, aqui na biblioteca, e disse que vinha a
fim de um cafezinho. Mentira, eu sei. Quando ele vem tomar
um cafezinho é porque está com alguma ideia borbulhando
em sua mente.
E estava. Depois do primeiro gole e antes do segundo,
café muito quente, ele afirmou que concorda plenamente
com a democratização da informação. Agora, com o advento
da internet, qualquer pessoa, democraticamente, pode externar aquilo que pensa.
Balancei a cabeça, na demonstração de uma quase
divergência, e seu espanto também me espantou. Como
assim, ele perguntou, está renegando a democracia? Pedi
com modos a meu amigo que não embaralhasse as coisas.
Democracia não é um termo divinatório, que se aplique
sempre, em qualquer situação.
Ele tomou o segundo gole com certa avidez e queimou
a língua.
Bem, voltando ao assunto, nada contra a democratização dos meios para que se divulguem as opiniões, as mais
diversas, mais esdrúxulas, mais inovadoras, e tudo o mais. É
um direito que toda pessoa tem: emitir opinião.
O que o Adamastor não sabia é que uns dias atrás andei
consultando uns filósofos, alguns antigos, outros modernos,
desses que tratam de um palavrão que sobrevive até os dias
atuais: gnoseologia. Isso aí, para dizer teoria do conhecimento.
Sim, e daí?, ele insistiu.
O mal que vejo, continuei, não está na enxurrada de
opiniões as mais isso ou aquilo na internet, e principalmente
com a chegada do Facebook. Isso sem contar a imensa quantidade de textos apócrifos, muitas vezes até opostos ao
pensamento do presumido autor, falsamente presumido. A
graça está no fato de que todos, agora, têm opinião sobre
tudo.
— Mas isso não é bom?
O gigante, depois da maldição de Netuno, tornou‐se
um ser impaciente.
O fato, em si, não tem importância alguma. O problema
é que muita gente lê a enxurrada de bobagens que aparecem na internet não como opinião, mas como conhecimento. O Platão, por exemplo, afirmava que opinião (doxa) era o
falso conhecimento. O conhecimento verdadeiro (episteme)
depende de estudo profundo, comprovação metódica, teste
de validade. Essas coisas de que se vale em geral a ciência.
O mal que há nessa “democratização” dos veículos é
que se formam crenças sem fundamento, mudam‐se as opiniões das pessoas, afirmam‐se absurdos em que muita pessoa ingênua acaba acreditando. Sim, porque estudar, comprovar
metodicamente, testar a validade, tudo isso dá muito trabalho.
O Adamastor não estava muito convencido da justeza
dos meus argumentos, mas o café tinha terminado e ele se
despediu.
(BRAFF, Menalton. Agora todo mundo tem opinião. Carta Capital, 2015.
Adaptado.)
Na oração “Balancei a cabeça, na demonstração de uma quase divergência, (...)” (3º§), podemos afirmar que o sujeito é:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência
teste
Parabéns! Você acertou!
Compare seu desempenho com quem faz o mesmo concurso. Ver concorrência