A palavra “sertão” é curiosa. A sonoridade sugere o verbo “ser” numa dimensão empolada. Ser tão, existir
tanto. Os portugueses levaram a palavra para África e tentaram nomear assim a paisagem da savana. Não
resultou. A palavra não ganhou raiz. Apenas nos escritos coloniais antigos se pode encontrar o termo “sertão”.
Quase ninguém hoje, em Moçambique e Angola, reconhece o seu significado.
João Guimarães Rosa criou este lugar fantástico, e fez dele uma espécie de lugar de todos os lugares. O
sertão e as veredas de que ele fala não são da ordem da geografia. O sertão é um mundo construído na
linguagem. “O sertão”, diz ele, “está dentro de nós”. Guimarães Rosa não escreve sobre o sertão. Ele escreve
como se ele fosse o sertão.
Em Moçambique nós vivíamos e vivemos ainda o momento épico de criar um espaço que seja nosso,
não por tomada de posse, mas porque nele podemos encenar a ficção de nós mesmos, enquanto criaturas
portadoras de História e fazedoras de futuro. Era isso a independência nacional, era isso a utopia de um mundo
sonhado.
Disponível em: https://jornalggn.com.br/. Acesso em 11 set. 2023. [Fragmento]
Conforme o texto, a expressão “A palavra não ganhou raiz” indica que a palavra
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