Em “Talvez não fosse um menino de família, mas também não er...
Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no meu braço, falou qualquer coisa que não entendi. Fui logo dizendo que não tinha, certa de que ele estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora. Talvez não fosse um menino de família, mas também não era um menino de rua. É assim que a gente divide. Menino de família é aquele bem-vestido com tênis da moda e camiseta de marca, que usa relógio e a mãe dá outro se o dele for roubado por um menino de rua. Menino de rua é aquele que quando a gente passa perto segura a bolsa com força porque pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão. (...)
Na verdade, não existem meninos de rua. Existem meninos na rua. E toda vez que um menino está na rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.
Quem leva nossas crianças ao abandono? Quando dizemos "crianças abandonadas" subentendemos que foram abandonadas pela família, pelos pais. E, embora penalizados, circunscrevemos o problema ao âmbito familiar, de uma família gigantesca e generalizada, à qual não pertencemos e com a qual não queremos nos meter. Apaziguamos assim nossa consciência, enquanto tratamos, isso sim, de cuidar amorosamente de nossos próprios filhos, aqueles que nos pertencem.
(COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002.)
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Gabarito: B) Origem
Tema central: Esta questão avalia a capacidade de interpretação de texto e o valor semântico da preposição "de" nas expressões “menino de família” e “menino de rua”. Compreender o papel das preposições é essencial para o entendimento de sentido nos enunciados, tal como ensinam obras-referência como Moderna Gramática Portuguesa (Bechara) e Nova Gramática do Português Contemporâneo (Cunha & Cintra).
Análise da alternativa correta:
De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa, a preposição “de” pode indicar diferentes relações entre dois substantivos: origem, posse, matéria e parte de um todo. No trecho citado, “menino de família” indica o proveniência/origem, isto é, o menino que provém, pertence ou tem origem em uma família. Da mesma forma, “menino de rua” é aquele cuja vida, infelizmente, tem a rua como origem/procedência. Este uso é explicitado por Bechara ao afirmar: “…a preposição de, ao ligar termos, realça a noção de procedência…”.
Estratégia de interpretação: Ao analisar o sentido, evite se prender ao significado literal: muitas alternativas tentam confundir utilizando o sentido mais comum da preposição. Busque identificar a relação semântica no contexto.
Análise das alternativas incorretas:
- A) Posse: “Menino de família” não é propriedade da família; seria “o brinquedo de João”.
- C) Matéria: Seria “anel de ouro” (feito de ouro), o que não faz sentido aqui.
- D) Parte de um todo: Exemplo: “página do livro”. Aqui, o menino não é parte de uma família/rúa, mas sim tem origem nela/nela está inserido.
Ponto de atenção: Questões desse tipo buscam verificar se o candidato reconhece valores semânticos da preposição. Uma dica importante é substituir mentalmente a estrutura e perguntar “vem de onde?” ou “é feito de quê/pertence a quem?” – isso ajuda a distinguir origem de posse ou matéria, por exemplo.
Resumo: A preposição “de” expressa origem/procedência em ambos os casos analisados, e esta compreensão é fundamental para evitar erros por distração.
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Comentários
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B
A preposição "de" estabelece uma relação de origem ou procedência. Nas expressões "de família" e "de rua", ela indica o meio social de onde os meninos provêm ou a que pertencem. Não se trata de posse física, mas de extração e classificação baseada no ponto de partida social de cada um. Em questões de semântica, identifique se a preposição indica de onde algo vem (origem), de que é feito (matéria) ou a quem pertence (posse). Aqui, foca-se no contexto de origem.
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