O uso das aspas no texto se justifica porque se trata de 

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Q3613397 Português

Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no meu braço, falou qualquer coisa que não entendi. Fui logo dizendo que não tinha, certa de que ele estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora. Talvez não fosse um menino de família, mas também não era um menino de rua. É assim que a gente divide. Menino de família é aquele bem-vestido com tênis da moda e camiseta de marca, que usa relógio e a mãe dá outro se o dele for roubado por um menino de rua. Menino de rua é aquele que quando a gente passa perto segura a bolsa com força porque pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão. (...)

Na verdade, não existem meninos de rua. Existem meninos na rua. E toda vez que um menino está na rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.

Quem leva nossas crianças ao abandono? Quando dizemos "crianças abandonadas" subentendemos que foram abandonadas pela família, pelos pais. E, embora penalizados, circunscrevemos o problema ao âmbito familiar, de uma família gigantesca e generalizada, à qual não pertencemos e com a qual não queremos nos meter. Apaziguamos assim nossa consciência, enquanto tratamos, isso sim, de cuidar amorosamente de nossos próprios filhos, aqueles que nos pertencem.


(COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002.) 

O uso das aspas no texto se justifica porque se trata de 
Alternativas

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✔ Tema central: Pontuação – Uso das aspas. A questão explora o domínio do candidato quanto às regras da norma-padrão para o emprego das aspas, em especial quando utilizadas para aludir ao discurso de outra pessoa.

Justificativa da alternativa correta (A):
No contexto do texto apresentado, as aspas são empregadas na expressão “crianças abandonadas” para indicar que se trata de uma alusão ao modo de falar de outras pessoas – ou seja, uma referência ou citação indireta de expressão corrente na sociedade.
Segundo a “Moderna Gramática Portuguesa” de Evanildo Bechara, as aspas marcam tanto citação direta quanto palavras ou expressões que se destacam por não serem de uso próprio do autor, mas sim da linguagem comum – caso típico de discurso de outrem.

Como reconhecer: Fique atento quando observar aspas em expressões consideradas já frequentes, repetidas por terceiros ou polemizadas socialmente. As aspas, muitas vezes, destacam que o autor quer separar sua própria opinião daquela presente no senso comum.

Análise das alternativas incorretas:

  • B) citação de voz referenciada: Não está correta porque as aspas não marcam uma citação literal ou direta, mas sim a menção indireta de um termo recorrente na sociedade.
  • C) expressão em sentido literal: Incorreta pois, com as aspas, o sentido é destacado ou até questionado; não é o uso literal, mas sim uma postura reflexiva do autor para provocar reflexão.
  • D) sentido cômico: As aspas também servem ao tom irônico, mas não é o caso do trecho; não há intenção de humor ou ironia, mas sim de análise crítica.

Dica de prova: Aspas costumam ser pegadinha! A observação do contexto é fundamental para identificar se elas indicam discurso reproduzido, ironia, expressão estrangeira, destaque, ou – como nesta questão – referência ao discurso alheio/senso comum.

Caso semelhante pode aparecer com termos como “delinquente”, “marginal”, etc., sempre revelando aquilo que outros costumam dizer, não necessariamente o autor.

Resumo: A alternativa correta é A – alusão a discurso de outrem, porque as aspas marcam a referência a uma expressão já usada socialmente, não sendo de cunho pessoal ou original da autora.

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Comentários

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A

O texto discute o preconceito e a estigmatização social. Colasanti critica a divisão entre "menino de família" e "menino de rua", pontuando que a sociedade usa o termo crianças abandonadas para transferir a responsabilidade apenas ao âmbito familiar. As aspas sinalizam uma alusão a discurso de outrem, destacando expressões do senso comum. O objetivo é denunciar a indiferença coletiva e a desigualdade que define o lugar da criança no mundo.

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