Ao longo do texto, o enunciador explora vários recursos para...
Eu, na rua, com pressa, e o menino segurou no meu braço, falou qualquer coisa que não entendi. Fui logo dizendo que não tinha, certa de que ele estava pedindo dinheiro. Não estava. Queria saber a hora. Talvez não fosse um menino de família, mas também não era um menino de rua. É assim que a gente divide. Menino de família é aquele bem-vestido com tênis da moda e camiseta de marca, que usa relógio e a mãe dá outro se o dele for roubado por um menino de rua. Menino de rua é aquele que quando a gente passa perto segura a bolsa com força porque pensa que ele é pivete, trombadinha, ladrão. (...)
Na verdade, não existem meninos de rua. Existem meninos na rua. E toda vez que um menino está na rua é porque alguém o botou lá. Os meninos não vão sozinhos aos lugares. Assim como são postos no mundo, durante muitos anos também são postos onde quer que estejam. Resta ver quem os põe na rua. E por quê.
Quem leva nossas crianças ao abandono? Quando dizemos "crianças abandonadas" subentendemos que foram abandonadas pela família, pelos pais. E, embora penalizados, circunscrevemos o problema ao âmbito familiar, de uma família gigantesca e generalizada, à qual não pertencemos e com a qual não queremos nos meter. Apaziguamos assim nossa consciência, enquanto tratamos, isso sim, de cuidar amorosamente de nossos próprios filhos, aqueles que nos pertencem.
(COLASANTI, Marina. A casa das palavras. São Paulo: Ática, 2002.)
Ao longo do texto, o enunciador explora vários recursos para sustentação da sua tese.
Assinale a opção que apresenta corretamente um dessesrecursos.
Gabarito comentado
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Tema central: Interpretação de Texto – Identificação de recursos argumentativos em crônica com foco em situações do cotidiano.
O texto apresentado de Marina Colasanti é uma crônica, gênero marcado pela linguagem simples e exposição de fatos corriqueiros, sempre com uma reflexão crítica sobre a sociedade. O tema recai sobre como a sociedade enxerga e “classifica” as crianças nas ruas, provocando o leitor a repensar esse olhar.
Análise da alternativa correta (B):
A alternativa B) Referência a uma situação cotidiana dos centros urbanos é correta. Veja por quê:
O texto baseia-se em um episódio real e comum: um menino aborda alguém na rua (situação típica dos centros urbanos). A cronista utiliza esse fato como exemplo para discutir o tema maior do abandono infantil e preconceito social. Trata-se de um recurso argumentativo clássico – a exemplificação – que torna o argumento mais próximo do leitor, levando à reflexão conforme preconiza a norma-padrão descrita em referências como Bechara e Cunha & Cintra sobre “exemplo concreto como ferramenta de argumentação”.
Análise das alternativas incorretas:
A) “Exploração da pontuação fragmentada”: apesar do uso de frases curtas, tal pontuação serve para dar ritmo ao texto – não configura um “recurso argumentativo” central.
C) “Exercício sistemático da ironia”: a ironia é recurso sutil, não sistemático ou predominante nesta crônica.
D) “Alusão a evento histórico importante”: o texto não menciona eventos ou figuras históricas como estratégia de convencimento.
Dica importante: Em questões de interpretação de texto, sempre busque identificar o que sustenta a tese do autor: exemplos do cotidiano, dados concretos, comparações, citações históricas ou ironias. No texto de Colasanti, é a aproximação da realidade que faz o leitor refletir sobre o tema central, caracterizando sua estratégia principal.
Cuidado para não confundir recursos estilísticos (forma de escrever, como pontuação e ritmo) com recursos argumentativos (fundamentação e convencimento do argumento).
Resumo: O texto utiliza a cena comum das cidades como base para toda a argumentação social proposta.
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Comentários
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B
A autora utiliza um relato pessoal de uma situação cotidiana para fundamentar sua tese. Ao descrever o encontro com o jovem, ela expõe o preconceito e a estigmatização social. Essa estratégia aproxima o leitor da realidade urbana, facilitando a reflexão crítica sobre a desigualdade e a desumanização. O texto transita do episódio particular para uma análise sobre a omissão coletiva e a responsabilidade social frente ao abandono infantil.
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