Sobre o sentido expresso pela locução verbal destacada em “e...
O caso do mendigo
Os jornais anunciaram, entre indignados e jocosos, que um mendigo, preso pela polícia, possuía em seu poder valores que montavam à respeitável quantia de seis contos e pouco. Ouvi mesmo comentários cheios de raiva a tal respeito. O meu amigo X, que é o homem mais esmoler desta terra, declarou-me mesmo que não dará mais esmolas. E não foi só ele a indignar-se. Em casa de família de minhas relações, a dona da casa, senhora compassiva e boa, levou a tal ponto a sua indignação, que propunha confiscar o dinheiro ao cego que o ajuntou. Não sei bem o que fez a polícia com o cego. Creio que fez o que o Código e as leis mandam; e, como sei pouco das leis e dos códigos, não estou certo se ela praticou o alvitre lembrado pela dona da casa de que já falei. O negócio fez-me pensar e, por pensar, é que cheguei a conclusões diametralmente opostas à opinião geral. O mendigo não merece censuras, não deve ser perseguido, porque tem todas as justificativas a sua defesa. Não há razão para indignação, nem tampouco para perseguição legal ao pobre homem. Tem ele, em face dos costumes, direito ou não a esmolar? Vejam bem que eu não falo de leis; falo dos costumes. Não há quem não diga: sim. Embora a esmola tenha inimigos, e dos mais conspícuos, entre os quais, creio, está M. Bergeret, ela ainda continua a ser o único meio de manifestação da nossa bondade em face da miséria dos outros. Os séculos a consagraram; e, penso, dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes justificativas. Mas não é bem disso que eu quero falar. A minha questão é que, em face dos costumes, o homem tinha direito de esmolar. Isto está fora de dúvida.
Schwarcz, Lilia Moritz. - Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 (adaptado)
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Tema central da questão: Interpretação de texto e análise semântica das locuções verbais, com foco no aspecto verbal de continuidade.
A questão explora o significado de “continua a ser”, uma locução verbal formada pelo verbo auxiliar “continuar” + preposição “a” + verbo principal “ser” no infinitivo. Segundo Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa, 2009), essa estrutura indica que uma ação iniciada no passado permanece no presente.
Justificativa – Alternativa Correta (D):
A alternativa D) Ação hipotética no presente. está INCORRETA. Motivo: A locução verbal "continua a ser" expressa um fato concreto, não uma possibilidade, condição ou hipótese. O uso de “continua" reforça a ideia de permanência de um estado, nunca de suposição. Portanto, não há hipótese neste contexto.
Análise das demais alternativas:
A) Ação que permanece atualmente.
Análise: CORRETA. A frase mostra que a condição (“ser o único meio...”) ainda permanece nos dias atuais.
B) Ação ocorrida no passado e que se mantém.
Análise: CORRETA. Reflete exatamente a função da locução: uma ação iniciada anteriormente que continua vigente.
C) Ação que marca algo que ocorre no presente.
Análise: CORRETA. Além de conservar o passado, foca principalmente no presente, indicando algo existente atualmente.
Resumo e estratégia:
Sempre que encontrar locuções como “continua a ser”, lembre-se:
- Continuidade = ação mantida do passado ao presente;
- Não se refere a hipótese (ao contrário de “seria”, “poderia ser”, etc.).
Cuidado! Em provas, alternativas com termos como “hipotético”, “possível” ou “condicional” geralmente exigem construções verbais diferentes, como o modo subjuntivo ou os verbos modais.
Referência: Bechara, E. Moderna Gramática Portuguesa.
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Comentários
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D
A locução "continua a ser" indica continuidade e duratividade. O verbo no presente do indicativo, reforçado por "ainda", expressa uma ação factual que iniciou no passado e persiste no presente. É incorreto classificá-la como ação hipotética, pois o texto afirma uma realidade (fato), e não uma possibilidade ou suposição. A hipótese exigiria o modo subjuntivo ou verbos de dúvida, o que não ocorre na estrutura analisada.
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