Sobre a opinião defendida no texto, assinale a opção correta.

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Q3613381 Português

O caso do mendigo


Os jornais anunciaram, entre indignados e jocosos, que um mendigo, preso pela polícia, possuía em seu poder valores que montavam à respeitável quantia de seis contos e pouco. Ouvi mesmo comentários cheios de raiva a tal respeito. O meu amigo X, que é o homem mais esmoler desta terra, declarou-me mesmo que não dará mais esmolas. E não foi só ele a indignar-se. Em casa de família de minhas relações, a dona da casa, senhora compassiva e boa, levou a tal ponto a sua indignação, que propunha confiscar o dinheiro ao cego que o ajuntou. Não sei bem o que fez a polícia com o cego. Creio que fez o que o Código e as leis mandam; e, como sei pouco das leis e dos códigos, não estou certo se ela praticou o alvitre lembrado pela dona da casa de que já falei. O negócio fez-me pensar e, por pensar, é que cheguei a conclusões diametralmente opostas à opinião geral. O mendigo não merece censuras, não deve ser perseguido, porque tem todas as justificativas a sua defesa. Não há razão para indignação, nem tampouco para perseguição legal ao pobre homem. Tem ele, em face dos costumes, direito ou não a esmolar? Vejam bem que eu não falo de leis; falo dos costumes. Não há quem não diga: sim. Embora a esmola tenha inimigos, e dos mais conspícuos, entre os quais, creio, está M. Bergeret, ela ainda continua a ser o único meio de manifestação da nossa bondade em face da miséria dos outros. Os séculos a consagraram; e, penso, dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes justificativas. Mas não é bem disso que eu quero falar. A minha questão é que, em face dos costumes, o homem tinha direito de esmolar. Isto está fora de dúvida.


Schwarcz, Lilia Moritz. - Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 (adaptado)

Sobre a opinião defendida no texto, assinale a opção correta.
Alternativas

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Tema central da questão: Interpretação de texto, sobretudo a identificação da opinião do narrador diante de um tema social (a prática da esmola) e como suas ideias se articulam ao longo do texto. É fundamental aplicar os princípios da coerência textual e da leitura atenta de argumentos.

Análise da alternativa correta (C):

O narrador, ao longo do texto, defende a prática da esmola, contextualizando sua necessidade diante da organização social defeituosa. Ele afirma: “os séculos a consagraram; e, penso, dada a nossa defeituosa organização social, ela tem grandes justificativas”. Esse trecho revela claramente sua opinião favorável à caridade, atrelando-a à história de desigualdade do país.

Segundo a regra de interpretação (vide Koch, A Coerência Textual), para inferir a ideia central, deve-se buscar os argumentos predominantes e o posicionamento explícito do narrador.

Por que as alternativas estão incorretas?

A) Afirma que o narrador é contrário à esmola. Isso é incoerente com o texto: o narrador critica quem se indigna e não vê problema na prática.

B) Diz que o narrador relativiza a esmola por questão legal. O texto indica que seu foco não está em leis, mas nos costumes, reforçando argumentos sociais, não jurídicos.

D) Supõe que o narrador reflete sobre a esmola por suspeitar da honestidade dos carentes. Pelo contrário, ele defende a legitimidade do mendigo e condena o preconceito social, tratando o caso como exceção e reafirmando o direito à caridade.

Dica de leitura: Atenção às palavras-chave, à presença de expressões como “não merece censuras” e à predominância do argumento do narrador, que são decisivas para a resposta. Evite se deixar levar por opiniões de personagens secundários expressas no texto.

Resumo: A alternativa C é a correta porque traduz fielmente a opinião do narrador, que defende a prática da esmola em função da histórica desigualdade e dos costumes sociais, promovendo uma análise lúcida e empática.

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Comentários

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C

O autor defende a esmola como um ato legítimo perante a organização social falha. Ele se opõe à indignação geral, argumentando que, diante da miséria, a esmola é o único meio de bondade. Para ele, o mendigo tem o direito de esmolar baseado nos costumes, justificando a prática pela desigualdade e pela estrutura da sociedade. O texto destaca que a caridade é uma resposta à negligência sistêmica, tornando a ação do pobre homem justificável e necessária.

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