Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao
lado do homem e de barriga para cima ficou
com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a
imagem de porcos no chiqueiro que comem e
dormem para serem sacrificados um dia. Seria
isto vida, meu Deus? Os dias passavam, estava
cansada, fraca para viver, mas coragem para
morrer, também não tinha ainda. O homem
gostava de dizer que ela era pancada da ideia.
Seria? Seria! Às vezes, se sentia, mesmo, como
se a sua cabeça fosse um grande vazio, repleto
de nada e de nada.
Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do
povoado onde nascera, a decisão chegou forte
e repentina. Estava cansada de tudo ali. De
trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras
dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a
terra dos negros coberta de plantações,
cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os
homens gastavam a vida trabalhando nas terras
dos senhores, e depois a maior parte das
colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada
da luta insana, sem glória, a que todos se
entregavam para amanhecer cada dia mais
pobres, enquanto alguns conseguiam
enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que
poderia traçar outros caminhos, inventar uma
vida nova. E avançando sobre o futuro, Ponciá
partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a
máquina não voltaria ao povoado. Nem tempo
de se despedir do irmão teve. E agora, ali
deitada de olhos arregalados, penetrados no
nada, perguntava-se se valera a pena ter
deixado a sua terra. O que acontecera com os
sonhos tão certos de uma vida melhor? Não
eram somente sonhos, eram certezas! Certezas
que haviam sido esvaziadas no momento em
que perdera o contato com os seus. E agora
feito morta-viva, vivia.
Conceição Evaristo.
Conceição Evaristo. (Ponciá Vicêncio, p. 32-33)
Assinale a alternativa em que há erro quanto
ao uso do sinal indicativo de crase:
Incorreta. Gabarito oficial da banca:
Treine mais com um simulado focado no seu concurso. Criar simulado
teste
Parabéns! Você acertou!
Está mandando bem! Treine mais em um simulado completo. Criar simulado