Na segunda parte do poema, a máquina do mundo abre-se de no...

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Q4110468 Literatura

A Máquina do Mundo


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável 


pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.


Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,


assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,


a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

“O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste… vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”


As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos


e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber


no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar

na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que tantos

monumentos erguidos à verdade; 


e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,


a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;


como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face 


que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos, 


passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes


em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,


baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.


A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,


se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mão pensa

Na segunda parte do poema, a máquina do mundo abre-se de novo. Existe aqui, novamente, a luta da realidade do eu lírico em relação a revelação mítica, assim sendo a segunda parte do poema divide-se em três momentos, os quais podem ser assim caracterizados:
I- Primeiro momento: um pedido para o próprio poeta se revelar, deixar de ser hermético, como a própria máquina o fez — os seus sentimentos precisam se abrir para o mundo.
II- Segundo momento: interação com o mundo de maneira sinestésica, sentir, olhar, reparar, auscultar as pessoas — necessidade em ser abertos e empático para com os outros, e confiar nos próprios sentidos e emoções.
III- Terceiro momento: a máquina sustenta sua posição de ente mítico e a necessidade de absorvê -la como parte para descoberta do enigma do mundo .
A partir da análise das proposições é possível afirmar:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O ponto decisivo era verificar se a segunda parte do poema podia ser organizada, de modo textual e necessário, nos três momentos descritos nas proposições I, II e III. Como essa segmentação fechada não decorre do poema, a contagem de itens fica inviabilizada e a alternativa E se mantém.

Tema central: validade da subdivisão interpretativa
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque depende de admitir a tripartição da segunda parte e depois contar exatamente uma proposição correta. O problema é anterior à contagem: a subdivisão proposta não se sustenta como base segura de leitura.
B
Errada
Está errada pelo mesmo motivo estrutural de A. Ela pressupõe que a segunda parte se divide validamente nos três momentos descritos e que dois deles estariam corretos, mas essa divisão rígida e essas caracterizações não decorrem do poema de forma necessária.
C
Errada
Está errada porque as três proposições extrapolam o texto em maior ou menor grau. A I fala em o poeta deixar de ser hermético e abrir sentimentos para o mundo; a II desloca 'olha, repara, ausculta' para empatia com pessoas; a III fala em necessidade de absorver a máquina, quando o movimento do poema culmina na recusa do eu lírico.
D
Errada
Está errada porque, embora rejeite o conteúdo das três proposições, ainda aceita o pressuposto de que há uma subdivisão visualizável da segunda parte para então declará-la toda incorreta. Pelo gabarito oficial, o erro decisivo está na própria possibilidade de impor essa tripartição nos termos propostos.
E
Certa
A alternativa E é a compatível com o critério adotado no gabarito oficial: a segunda parte do poema não pode ser tomada, com segurança textual, como organizada objetivamente em três momentos exatamente como I, II e III descrevem. As proposições introduzem conteúdos específicos que excedem o texto, como abertura sentimental ao mundo, empatia com pessoas e necessidade de absorção da máquina, além de pressuporem uma divisão rígida que não se impõe como estrutura necessária.
Pegadinha da questão
A pegadinha foi oferecer uma divisão tripartida já pronta e induzir o candidato a apenas contar itens corretos, além de deslocar verbos como 'olha, repara, ausculta' do plano da revelação metafísica para uma leitura de empatia com pessoas, que o texto não impõe.
Dica para questões semelhantes
  • Antes de contar proposições corretas, verifique se a estrutura interpretativa imposta pela questão realmente está sustentada pelo texto.
  • Rejeite leituras que trocam o objeto expresso no poema por outro não textual, como passar da revelação da máquina do mundo para relações interpessoais.
  • Quando a alternativa descreve assimilação ou aceitação, confronte com o desfecho do texto; aqui, a segunda parte é marcada pela recusa do eu lírico.
  • Em poesia, uma organização interna possível não equivale a uma subdivisão objetiva e necessária nos termos fechados do enunciado.

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