Analise as proposições como verdadeira ( V ) ou falsa ( F )...

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Q4110467 Literatura

A Máquina do Mundo


E como eu palmilhasse vagamente

uma estrada de Minas, pedregosa,

e no fecho da tarde um sino rouco


se misturasse ao som de meus sapatos

que era pausado e seco; e aves pairassem

no céu de chumbo, e suas formas pretas


lentamente se fossem diluindo

na escuridão maior, vinda dos montes

e de meu próprio ser desenganado,


a máquina do mundo se entreabriu

para quem de a romper já se esquivava

e só de o ter pensado se carpia.


Abriu-se majestosa e circunspecta,

sem emitir um som que fosse impuro

nem um clarão maior que o tolerável 


pelas pupilas gastas na inspeção

contínua e dolorosa do deserto,

e pela mente exausta de mentar


toda uma realidade que transcende

a própria imagem sua debuxada

no rosto do mistério, nos abismos.


Abriu-se em calma pura, e convidando

quantos sentidos e intuições restavam

a quem de os ter usado os já perdera


e nem desejaria recobrá-los,

se em vão e para sempre repetimos

os mesmos sem roteiro tristes périplos,


convidando-os a todos, em coorte,

a se aplicarem sobre o pasto inédito

da natureza mítica das coisas,


assim me disse, embora voz alguma

ou sopro ou eco ou simples percussão

atestasse que alguém, sobre a montanha,


a outro alguém, noturno e miserável,

em colóquio se estava dirigindo:

“O que procuraste em ti ou fora de


teu ser restrito e nunca se mostrou,

mesmo afetando dar-se ou se rendendo,

e a cada instante mais se retraindo,


olha, repara, ausculta: essa riqueza

sobrante a toda pérola, essa ciência

sublime e formidável, mas hermética,


essa total explicação da vida,

esse nexo primeiro e singular,

que nem concebes mais, pois tão esquivo


se revelou ante a pesquisa ardente

em que te consumiste… vê, contempla,

abre teu peito para agasalhá-lo.”


As mais soberbas pontes e edifícios,

o que nas oficinas se elabora,

o que pensado foi e logo atinge


distância superior ao pensamento,

os recursos da terra dominados,

e as paixões e os impulsos e os tormentos


e tudo que define o ser terrestre

ou se prolonga até nos animais

e chega às plantas para se embeber


no sono rancoroso dos minérios,

dá volta ao mundo e torna a se engolfar

na estranha ordem geométrica de tudo,


e o absurdo original e seus enigmas,

suas verdades altas mais que tantos

monumentos erguidos à verdade; 


e a memória dos deuses, e o solene

sentimento de morte, que floresce

no caule da existência mais gloriosa,


tudo se apresentou nesse relance

e me chamou para seu reino augusto,

afinal submetido à vista humana.


Mas, como eu relutasse em responder

a tal apelo assim maravilhoso,

pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,


a esperança mais mínima — esse anelo

de ver desvanecida a treva espessa

que entre os raios do sol inda se filtra;


como defuntas crenças convocadas

presto e fremente não se produzissem

a de novo tingir a neutra face 


que vou pelos caminhos demonstrando,

e como se outro ser, não mais aquele

habitante de mim há tantos anos, 


passasse a comandar minha vontade

que, já de si volúvel, se cerrava

semelhante a essas flores reticentes


em si mesmas abertas e fechadas;

como se um dom tardio já não fora

apetecível, antes despiciendo,


baixei os olhos, incurioso, lasso,

desdenhando colher a coisa oferta

que se abria gratuita a meu engenho.


A treva mais estrita já pousara

sobre a estrada de Minas, pedregosa,

e a máquina do mundo, repelida,


se foi miudamente recompondo,

enquanto eu, avaliando o que perdera,

seguia vagaroso, de mão pensa

Analise as proposições como verdadeira ( V ) ou falsa ( F ). ( ) O poema mantem uma relação intertextual com Os Lusíadas, de Camões. E não só pelo tamanho, mas também pelo termo máquina do mundo também aparecer nos versos de Camões.
( ) A máquina do mundo é um termo usado para representar, de forma alegórica, o sistema como o mundo funciona.
( ) No poema, os versos decassílabos bem construídos, uma reverência ao clássico não tão comum aos modernos, promove uma reflexão sobre o homem e a linguagem e, principalmente, ao seu tempo.
( ) A intertextualidade é um elemento presente no poema.
( ) Drummond usa uma ótica inteiramente pessoal para mostrar como ele enxerga o funcionamento do universo. O início é turvo e um verdadeiro enigma, o começo do poema é inerentemente pesado.
A sequência correta de cima para baixo é:
Alternativas

Gabarito comentado

Confira o gabarito comentado por um dos nossos professores

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O ponto decisivo era verificar, em cada proposição, se havia apoio textual suficiente ou se a afirmação extrapolava o poema. Nesse recorte, as quatro primeiras não se sustentam com segurança e só a 5ª encontra respaldo direto nas imagens e na subjetividade do eu lírico, levando à sequência F – F – F – F – V.

Tema central: estilística e intertextualidade
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque toma as cinco proposições como verdadeiras, contrariando a sequência exigida pela questão.
B
Errada
Incorreta porque marca como verdadeiras as proposições 2, 3 e 4, que não têm sustentação segura na forma como foram formuladas.
C
Errada
Incorreta porque, embora já negue as proposições 1 e 4, ainda mantém 2 e 3 como verdadeiras, o que não corresponde ao gabarito oficial.
D
Certa
A alternativa D está certa porque é a única compatível com o critério de apoio textual seguro exigido pela questão. A 5ª proposição é defensável, pois o poema apresenta uma ótica subjetiva do eu lírico e uma atmosfera inicial pesada e enigmática, sustentada por imagens como "estrada de Minas, pedregosa", "céu de chumbo", "formas pretas" e "escuridão maior". Já as proposições 1 a 4 fazem afirmações categóricas ou técnicas que, tal como redigidas, não estão suficientemente demonstradas pelo enunciado: a 1ª fixa intertextualidade específica com Os Lusíadas; a 2ª reduz o símbolo a uma alegoria fechada; a 3ª combina metrificação e efeito interpretativo de modo não comprovado; e a 4ª afirma intertextualidade em sentido técnico sem base segura.
E
Errada
Incorreta porque considera verdadeiras as quatro primeiras proposições e ainda marca a 5ª como falsa, invertendo a sequência correta.
Pegadinha da questão
Aceitar como comprovadas afirmações críticas plausíveis — especialmente intertextualidade, alegoria fechada e efeito técnico da metrificação — sem base textual suficiente.
Dica para questões semelhantes
  • Em item de V/F sobre literatura, separe leitura plausível de afirmação tecnicamente comprovada pelo texto.
  • Quando a proposição usa termos categóricos sobre intertextualidade, metrificação ou função estética, exija demonstração específica.
  • Se uma afirmação interpretativa reduz um símbolo complexo a um sentido único e fechado, a tendência é ela estar simplificada demais.
  • Prefira o que está diretamente sustentado pelo campo imagético e pela voz do poema.

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