As alternativas a seguir apresentam palavras que ocorrem no...
Texto para responder às questões.
Caso de divórcio (III)
Ele é um ex-seminarista. Sério, metódico e higiênico. Do tipo que dorme sem amassar o pijama. Dela, todos dizem: é uma santa. Nunca tiveram filhos, e explicam que é por um problema de bacia estreita. Dele, não dela, mas ninguém jamais pediu maiores explicações. Ele é técnico contábil, está muito bem de vida. Ela se dedica a obras benemerentes e a atividades paroquiais. Os dois fizeram cursilho. Certa vez, ele escreveu uma carta ao jornal sobre uma vaga questão de dogma da Igreja e assinou Leigo Alerta. Ela usa o cabelo puxado para trás e amarrado num coque que é uma declaração de princípios. Até que um dia...
Um dia, por acaso, ligam o rádio no meio de uma transmissão de futebol. E ela ouve um nome: Dulcídio Wanderley Boschilia. Não ouve o resto da frase, não sabe quem é, mas fixa-se no nome como se o agarrasse com os dentes. Dulcídio Wanderley Boschilia. Estremece. Sente uma estranha sensação no peito, uma aflição. Como um sumidouro. Dulcídio Wanderley Boschilia. O que é que está me acontecendo, Deus? Levanta e vai na cozinha tomar água. Quando volta, o marido acabou de desligar o rádio e está tirando a gravata, sinal certo de que se prepara para dormir. Será que ele notou alguma coisa? Dulcídio Wanderley Boschilia. Não consegue dormir. Nunca mais será a mesma. Que fascínio tem aquele nome para mudar uma vida? E o mais estranho é que só de madrugada, o marido roncando como um urso, ela se dá conta que existe um homem que corresponde ao nome. Até então o nome fora uma assombração sem corpo na sua vigília, uma coisa etérea, uma abstração sonora.
Poucas horas antes da missa das seis, a aflição ganha um corpo. Mas que corpo terá Dulcídio Wanderley Boschilia? De volta da missa ela pega o jornal e vira para a página de esportes. Procura uma fotografia. Será este aqui? Deixa ver. Zezinho. Não é este. Tadeu. Cacau. Sente-se ridícula. O massagista Banha.
Preciso me controlar. E súbito, num canto da página, a notícia: o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia, que apitou o jogo de ontem, ficará na cidade até amanhã pela manhã, quando embarcará para São Paulo.
A empregada aparece na sala para pedir instruções para o almoço e descobre a patroa, com o jornal amassado contra o peito, o olhar perdido, e uma expressão na boca que a empregada — se soubesse soletrar a palavra — chamaria de pura lascívia. No mesmo dia, temendo nem ela sabe bem o quê, a empregada pede dispensa, depois de 17 anos com a família.
Na manhã do dia seguinte, em vez da missa, a mulher vai para o aeroporto. De cabelo solto. O marido fica dormindo. Atenta a todas as chamadas para embarque, a mulher procura em vão por alguém com cara de Dulcídio Wanderley Boschilia. Almoça um bauru com guaraná no balcão do aeroporto e fica até à noite. Só quando descobre que não há mais voos para São Paulo naquele dia é que vai para casa.
— Onde é que você esteve? quis saber o marido, preocupado.
— Não interessa.
Ela tranca-se no quarto, e nos quatro dias seguintes só sai uma vez, para telefonar a um jornal. Pede o endereço de Dulcídio Wanderley Boschilia em São Paulo. Ninguém sabe. Ela deve escrever para a Federação Paulista de Futebol, o Departamento de Árbitros, por aí. Na noite do quarto dia ela declara para o marido:
— Quero ir para São Paulo.
— Está bem. Iremos.
— Você, não. Eu. Quero viver. Quero viver!
O marido salta com os dois pés no seu peito, como um Watusi, e a manda cambaleando para dentro do quarto. Fecha a porta. Até hoje, só a deixa sair para ir ao banheiro. Ela tem assustado várias pessoas da vizinhança com chamados furtivos, da janela, no meio da noite, e misteriosos bilhetes “para o Dulcídio, em São Paulo. Rápido, rápido!”
VERISSIMO, L. F. Ed Mort e outras histórias. Porto Alegre: L&PM Editores, 1985.