Considerando as ideias textuais, é possível inferir que a a...

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Q3992279 Português
Tenho dez celulares e o sentimento do mundo

    O Dia das Mães veio e passou, com sua quantidade de anúncios, folhetinhos, encartes, promoções, outdoors, capas de revista e filas em restaurantes. Como todo mundo, eu também enjoei dessa overdose anual de exaltação à maternidade e às vendas. Mães são mães, filhos, filhos, e não há muito que uma data comercial possa acrescentar ou subtrair a fato tão simples, exceto pelo aspecto negativo de amplificar ausências, sublinhar carências e relembrar às famílias desconjuntadas a sua desconjuntação. De resto, menos um domingo no calendário.
    Mas será esse consumo desenfreado a única alternativa evolucionária do ser humano? Será que o nosso caminho natural, da aurora dos tempos ao fim da espécie, passa, necessariamente, pelas Casas Bahia? Há menos intenção crítica de minha parte do que curiosidade antropológica na questão. Criticar o consumismo é chover no molhado, e é, de certa maneira, rejeitar a própria condição humana, já que parte ponderável do nosso tempo e da nossa energia são gastos com o consumo. Isso não impede que eu considere uma das grandes tragédias da nossa época, a apresentação do consumismo como cura para todos os males; mas essa é outra história.
    O que me intriga é: o que faria o ser humano se não consumisse; e, onde ficam as fronteiras do consumo estritamente necessário para saber o que seria um hipotético humano não-consumista. E não, não adianta olhar para qualquer ponto de miséria extrema do planeta para obter a resposta, porque ela nunca está nos extremos. O que faria hoje um bípede médio em circunstâncias médias se, em algum momento ao longo dos últimos dois milhões de anos, nós não tivéssemos nos afastado dos demais animais inventando formas radicalmente novas de buscar comida, cobrir o corpo, fabricar utensílios e parcelar o pagamento?
    Ouço analistas econômicos discorrendo sobre a necessidade de se “aquecer as vendas”; observo o governo empurrando taxas de juros para aumentar ou conter o consumo. De tudo, fica a impressão de que o mundo só está de pé, se é que está, porque as pessoas vão às compras. Será que essa é mesmo a nossa maior finalidade existencial, aquela que garante a sobrevivência da espécie?
    Não estou descobrindo nenhuma novidade. Não falta quem estude o assunto, que já preocupava pensadores do século retrasado. Num nível mais simples, me basta uma única página do Aurélio, que traz tanto a definição de consumo, a “utilização de mercadorias e serviços para satisfação das necessidades humanas”, quanto a de consumismo, “sistema que favorece o consumo exagerado”. E o que é exagerado? Ah, aí preciso ir a outra página, onde, entre um verbete e outro, chego à conclusão de que não há definição possível para a essência da coisa, pelo simples motivo de que, embora qualquer um de nós saiba reconhecer um exagero quando o vê, o que é exagero para um pode ser necessidade básica para outro. E aí recomeçamos tudo do zero.

(Cora Rónai. O Globo. Segundo Caderno. Em: 15/05/2008. Adaptado.)
Considerando as ideias textuais, é possível inferir que a autora, Cora Rónai:
Alternativas

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O ponto decisivo está nas perguntas retóricas e no léxico avaliativo do trecho: "Mas será esse consumo desenfreado a única alternativa evolucionária do ser humano? Será que o nosso caminho natural, da aurora dos tempos ao fim da espécie, passa, necessariamente, pelas Casas Bahia?". Esses elementos indicam problematização crítica do consumismo, e não defesa ou explicação objetiva, o que sustenta a alternativa A.

Tema central: crítica ao consumismo
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque traduz a posição discursiva da autora: ela não descreve o consumo de modo neutro nem o defende, mas o questiona por meio de interpelações sucessivas. Expressões como "consumo desenfreado", "overdose anual" e "consumo exagerado", somadas a perguntas como "Será que essa é mesmo a nossa maior finalidade existencial", evidenciam problematização do consumismo e de sua naturalização social. Isso corresponde a interpelar sobre o consumismo descontrolado.
B
Errada
Está errada porque o texto não ressalta motivos que justifiquem o consumismo desenfreado. Quando menciona analistas econômicos, governo, juros e a ideia de "aquecer as vendas", a autora usa esses elementos para mostrar como o consumo foi colocado no centro da vida social. A orientação argumentativa é crítica e interrogativa, não explicativa nem legitimadora.
C
Errada
Está errada porque a autora não critica categoricamente as festividades do Dia das Mães em si. O primeiro parágrafo ataca a dimensão comercial da data, marcada por "anúncios, folhetinhos, encartes, promoções" e pela "overdose anual de exaltação à maternidade e às vendas". Depois, o texto amplia o foco para o consumismo em geral. Portanto, a alternativa reduz indevidamente o alcance temático e troca crítica à exploração comercial por condenação absoluta da celebração.
D
Errada
Está errada porque o texto não explica minuciosamente o aumento das taxas de juros nem desenvolve análise técnica da economia. A passagem sobre juros aparece apenas como exemplo de que o consumo é tratado socialmente como algo a ser estimulado ou contido. Há menção ilustrativa, não explicação detalhada de política econômica.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o leitor se prender ao início do texto e marcar C, ou de tomar as referências a economia como explicação causal e marcar B ou D; o centro da resposta, porém, está nas perguntas retóricas que revelam a atitude crítica da autora diante do consumismo.
Dica para questões semelhantes
  • Em comando com "é possível inferir", identifique a atitude do enunciador, não apenas o assunto mencionado.
  • Perguntas retóricas e palavras avaliativas como "desenfreado" e "exagerado" costumam revelar a posição discursiva do autor.
  • Diferencie menção exemplificativa de explicação detalhada: citar juros não é o mesmo que explicá-los tecnicamente.
  • Verifique se a alternativa respeita o recorte do texto: aqui, o Dia das Mães é ponto de partida, mas o alvo central é o consumismo.

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