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Q738692 Português

Escravos de latas e fios

   

      O homem sempre construiu máquinas e as máquinas acompanham as sociedades humanas desde a Antiguidade. Mas só há 200 anos elas tiveram um grande aperfeiçoamento, quando se investiu maciçamente na criação de motores a vapor, de máquinas elétricas e à explosão e depois de sistemas que sofisticaram esses equipamentos e foram tornando a sociedade cada vez mais cheia de utensílios e aparelhos.

      Máquinas de escrever, de gravar de sons, de gelar, de cozinhar, de costurar, de imprimir, de alterar o ambiente, de produzir energias, máquinas de todo tipo foram constituindo um mobiliário cotidiano e dando a impressão de que com elas se obteria cada vez mais conforto e bem-estar.

      Aí está o sonho do homem que viveu há mais de 200 anos: uma variedade de equipamentos mecânicos e elétricos à sua disposição, conduzindo a certo tipo de paraíso no qual não se precisaria fazer quase nada. Todos os trabalhos, pesados ou leves, grandes ou pequenos seriam, de uma forma ou de outra, realizados por equipamentos. Era um sonho não precisar de escravos ou pessoas para servir e estar tudo ao alcance da mão à medida que desse apenas um piparote.

      O mesmo princípio alimenta hoje a indústria da robótica na ilusão de criar máquinas ainda mais sofisticadas que o homem, inclusive na capacidade de pensar. Existe um grupo de pesquisadores norte-americanos que investe grandes somas de dinheiro em estudos para desenvolver sistemas eletrônicos tais que não só se equiparem mas ultrapassem o homem, atingindo uma perfeição que este nunca teve, a perfeição absoluta em termos de sistemas de inteligência.

      (...) As máquinas foram se tornando familiares ao homem e o homem foi delegando cada vez mais atribuições a elas, deixando, ele mesmo, de ter experiência, vivência e conhecimento das coisas que a máquina "faz" por ele.

      Em certo sentido, o aumento das máquinas significou também um empobrecimento do homem. Há certos ramos profissionais em que os especialistas possuem tantas máquinas à disposição que cada vez menos pesquisam, cada vez menos conhecem em profundidade os fatos de sua profissão, cada vez mais ignorantes são (...).

      Mas o que mais marca o período "tecnocêntrico" de nossa cultura é o aparecimento, junto com todos os sistemas técnicos, mecânicos, elétricos, de produção, trabalho e bem-estar, de um campo de utilização desses equipamentos que se tornou cada vez mais totalizador. É o uso da tecnologia de comunicação e informação. Elas vieram como uma espécie de contraponto a uma sociedade que se torna cada vez menos social, onde as pessoas cada vez menos se falam, encontram-se, veem- se, tocam-se; em que as pessoas têm cada vez menos tempo para as outras, para os amigos; uma sociedade, portanto, de progressivo isolamento.

      A comunicação, como espaço de troca de sensações, vivências, informações com o outro, hoje é "realizada" por meios de aparelhos e máquinas eletrônicas. As tecnologias tentam artificialmente reagregar um mundo de contatos humanos que na prática já está totalmente rarefeito, pulverizado.

                                                 (Ciro Marcondes Filho. Sociedade tecnológica. Adaptado) 

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Alternativas

Gabarito comentado

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Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura inferencial do título como antecipação temática e síntese crítica da progressão argumentativa do texto. A expressão “Escravos de latas e fios” admite dupla projeção de sentido: retoma o sonho de ter máquinas no lugar de servos e, ao mesmo tempo, antecipa a crítica de que o homem passa a depender delas, tornando-se metaforicamente escravo da tecnologia. Isso confirma a alternativa A.

Tema central: sentido do título
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque reconhece a ambivalência semântica do título. O texto primeiro apresenta o antigo sonho de dispor de mecanismos que servissem ao homem no lugar de escravos ou pessoas a seu serviço. Depois, desenvolve a crítica de que essa delegação crescente às máquinas produz dependência, empobrecimento humano e isolamento. Assim, o título não tem sentido único nem apenas descritivo: ele já antecipa, de forma condensada, o movimento argumentativo do texto.
B
Errada
A alternativa erra o tema. O texto não discute desvalorização do trabalhador contemporâneo em serviços braçais. “latas e fios” remete metaforicamente às máquinas e tecnologias, e a crítica recai sobre a relação homem-máquina: promessa de conforto, delegação de funções, empobrecimento humano e isolamento social. Portanto, há deslocamento temático indevido.
C
Errada
A alternativa reduz o título a uma só direção de sentido e ainda literaliza indevidamente “escravos”. O texto menciona o sonho de dispensar escravos ou pessoas para servir, mas não afirma que o homem hoje sonha ter escravos. Além disso, o desenvolvimento do texto introduz a inversão crítica: o homem passa a depender das máquinas. A alternativa elimina justamente essa segunda camada, que é decisiva.
D
Errada
A alternativa desloca o foco argumentativo para “as condições sociais do homem de 200 anos atrás”, mas esse não é o eixo do texto. A referência temporal serve para situar o aperfeiçoamento das máquinas e o antigo sonho de conforto, não para desenvolver uma análise histórica dessas condições sociais como argumento central. O título se articula com a crítica à tecnocentria, não com um recorte histórico-social daquele período.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura parcial do título: quem fica só no sentido literal de “escravos” ou só no sonho de conforto perde a inversão crítica do texto, em que o homem passa a se submeter às máquinas.
Dica para questões semelhantes
  • Quando a pergunta recair sobre o título, confronte-o com o início e com a conclusão do texto para verificar se ele antecipa a tese ou resume a progressão argumentativa.
  • Se o título contiver expressão metafórica, teste mais de uma camada de sentido antes de escolher alternativa de sentido único.
  • Elimine opções que troquem o tema central do texto por outro apenas associado a uma palavra chamativa, como “escravos”.

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Comentários

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ENTNEDI FOI NADA

Concordo com o gabarito, alternativa "a", já que a ideia principal do texto é criticar a dependência nociva da tecnologia para a interação social que, com isso, esta é prejudicada com, ao invés de aproximar, afastar as pessoas afetivamente. Boa questão. Errei, marquei a "d". Gostei dessa banca. Boas questões.

Rumo GCM Ipatinga!!

Questão bem subjetiva pelo que entendi.

Para resolver é necessário à leitura do texto e também obsservar o que a banca pediu que não está explicito.

Loucura loucura!

O título do texto é "Escravos de latas e fios" e o gabarito apontado como correto foi: duas sugestões de significado, uma ligada a um antigo sonho do ser humano e outra relacionada à crítica desenvolvida ao longo do texto.

Então o antigo sonho do ser humano era o de ser um escravo de latas e fios?

A crítica central do texto é a dependência do ser humano às novas tecnologias e como isso afeta a sociabilidade. Aí eu pergunto, o que isso tem a ver com o título? A questão foi categórica ao afirmar que o referencial é o título.

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