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Q4360976 Português

TEXTO I


O RESERVA 



Era dia de jogo na várzea em uma cidade do interior baiano. Torneio local em campinho de terra. Porém, para mim, era final de Copa do Mundo. Campo apinhado, umas trezentas pessoas ou mais. Impossível não sentir o peso da atmosfera!


Parece que não fui só eu quem sentiu! Irreconhecíveis em campo, errávamos tudo, e a impressão é a de que nem tínhamos treinado. Na verdade, não treinamos. Chico era carpinteiro, Manéu, ajudante de pedreiro, Timba da rua de baixo pintava casas. Fazer o quê? Pensamento alto de jogador que acha que é profissional ao dar palpite na partida do seu time de coração.


O fato é que trememos. Infelizmente. Quando dei por fé, o placar de três a zero no primeiro tempo, já com dez do segundo, ia em cinco, sem nem sequer sujarmos a roupa do goleiro deles. Nisso, a nossa torcida começou a protestar. Acreditem, nem a Gaviões da Fiel o faria do mesmo jeito. Sem alambrado, o campo hostil balançava. Pior, fazia tremer a terra. Uma La Bombonera do Sertão. Teve uma hora que pedi para meu São Judas Tadeu, na sua missão mais atarefada, me tirar dali.


Placar adverso, torcida visitante que ria – bater resenha faz parte – e a minha querendo nos matar. Não sei se disse que fiquei noventa por cento do jogo no banco de reservas. Já estava amuado. Foi então que Madureira olhou para o banco e me chamou finalmente.


- Aquece!


Me senti a arma secreta, o cara que ia mudar o jogo que já estava sete a um. Sim, fizemos um gol! Tudo bem que foi recuo errado deles que enlouqueceram com o coitado do goleiro o qual, sem nenhuma ação no jogo, disperso, deixou passar a bola. Mas gol é gol. Comemoramos muito.


Fiz o que ele me mandou. Fui para a lateral e comecei a alongar. Foi então que um corneteiro virou para o meu lado e começou:


- Tu é muito ruim, galego. Perna de pau mesmo. Vai pra casa, carniça!


Não suportando a ofensa, me virei para ele e vociferei:


- Tu nunca me viu jogar. Fica quieto.


- E precisa? Reserva de um time desse?! – respondeu o torcedor. 


Aquilo mexeu no meu orgulho. Fiquei louco na hora. Ao mesmo tempo, deixando de lado o passional, refleti aos olhos da razão que ele não estava de todo errado. Minha verve deu uma abaixada. De motivado, passei a continuar meu aquecimento um pouco cabisbaixo.


Pensei: se entrar em campo e fizer mais oito gols calarei a boca deles, sairei nos braços do povo. Chegará um contrato, pois os blogs vão noticiar o feito, a Tevê virá me entrevistar, grandes clubes me farão uma proposta, irei para o exterior. Chegaria ao Real Madrid. Bola de ouro? Quem sabe? Galego do time da virada, Galego do time do Amor!


Aquele lampejo durou até o apito do juiz que o fizera não para acabar o jogo, mas para indicar mais um gol dos caras. Daí a invasão aconteceu. Uns trinta torcedores vinham em nossa direção e começamos a correr desesperadamente. Finalmente corremos. Já era hora. A gritaria tomou conta. Dá nele bola! Foi nego pra tudo que é lado. Jogo de vida ou morte. 


TELLES, Jorge. Histórias Avulsas 2025. 

Leia as afirmações abaixo sobre o texto I antes de julgar o que se pede.



I. Pode-se afirmar que o texto é de natureza essencialmente narrativa, já que apresenta elementos como narrador, personagens, enredo e cenário.


II. Por ser uma Narração, nota-se a ausência de características dos demais tipos de texto, como a Descrição.


III. Um dos aspectos do relato feito é a imparcialidade diante da visão de mundo objetiva quanto ao esporte em evidência.


IV. Prepondera, no relato feito, o aspecto otimista do narrador personagem diante da concretização das suas expectativas.



Pode-se dizer que, a partir da leitura do texto I, encontra-se correto o que se afirmou somente em: 

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