De acordo com o poema,

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Q356003 Português
Menino do mato

Eu queria usar palavras de ave para escrever.
Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem
[ nomeação.
Ali a gente brincava de brincar com palavras
tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra!
A Mãe que ouvira a brincadeira falou:
Já vem você com suas visões!
Porque formigas nem têm joelhos ajoelháveis
e nem há pedras de sacristias por aqui.
Isso é traquinagem da sua imaginação.
O menino tinha no olhar um silêncio de chão
e na sua voz uma candura de Fontes.
O Pai achava que a gente queria desver o mundo
para encontrar nas palavras novas coisas de ver
assim: eu via a manhã pousada sobre as margens do
rio do mesmo modo que uma garça aberta na solidão
de uma pedra.
Eram novidades que os meninos criavam com as suas
palavras.
Assim Bernardo emendou nova criação: Eu hoje vi um
sapo com olhar de árvore.
Então era preciso desver o mundo para sair daquele
lugar imensamente e sem lado.
A gente queria encontrar imagens de aves abençoadas
pela inocência.
O que a gente aprendia naquele lugar era só ignorâncias
para a gente bem entender a voz das águas e
dos caracóis.
A gente gostava das palavras quando elas perturbavam
o sentido normal das ideias.
Porque a gente também sabia que só os absurdos
enriquecem a poesia.

(BARROS, Manoel de, Menino do Mato, em Poesia Completa, São Paulo, Leya, 2013, p. 417-8.)
De acordo com o poema,
Alternativas

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Tema central: Interpretação de texto literário com foco em figuras de linguagem — notadamente metáfora e personificação.

O poema apresentado explora como as crianças reimaginam o mundo através das palavras, modificando o sentido literal e enriquecendo a poesia com imagens inusitadas e criativas.

Justificativa da Alternativa Correta (E):

E) "as visões a que a mãe se refere são, para o menino, alterações no sentido usual das ideias, com que reinventava o mundo que o cercava."

O texto mostra claramente que o menino utiliza as palavras não de modo convencional, mas sim para reinventar a realidade — exemplo: "Eu hoje vi um sapo com olhar de árvore." Esse uso deliberado do sentido figurado, conforme define Evanildo Bechara em Moderna Gramática Portuguesa, caracteriza o afastamento do sentido comum e a criação poética. O poema, de maneira explícita, diz: "A gente gostava das palavras quando elas perturbavam o sentido normal das ideias." Esse é o ponto central que resolve a questão: o olhar do menino recria o mundo por meio da linguagem figurada.

Análise das alternativas incorretas:

A) Diz que a linguagem era pobre para a imensidão do mundo do menino, mas o poema mostra o contrário: as crianças expandem a linguagem já existente, não por pobreza vocabular, mas por inventividade.

B) Supõe que a imaginação do menino está "livre da linguagem". Contudo, o texto mostra que é justamente pelo uso fantasioso das palavras que sua imaginação ganha forma.

C) Indica que os sentidos das palavras do menino se adequavam às ideias normais. Isso está equivocado, pois o poema valoriza o absurdo e o distanciamento do comum — "só os absurdos enriquecem a poesia".

D) Sugere que a mãe considera "absurdos" como fruto de ignorância do menino. No entanto, a mãe os classifica como "traquinagem da imaginação", não ignorância.

Dicas de prova: Fique atento a termos como “sentido normal” e “absurdo”: eles usualmente indicam a exploração poética de sentidos, não mera loucura ou ignorância. Busque no texto palavras explícitas que indiquem afastamento do uso literal, como "reinventar", "perturbar o sentido" ou "criação". Assim, evita armadilhas de leitura superficial.

Referência: Celso Cunha & Lindley Cintra ressaltam que a criatividade metafórica é pilar da poesia, alterando o ordinário para surpreender (Nova Gramática do Português Contemporâneo).

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Comentários

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"Ali a gente brincava de brincar com palavras " e "A gente gostava das palavras quando elas perturbavam 
o sentido normal das ideias.
", nesses dois versos o poeta deixa claro que, na verdade, ele vê o mundo igual a todo mundo, só que descreve suas 'visões' de uma forma diferente (alteração no sentido usual das ideias=perturbar o sentido normal das ideias)) como uma forma de reinventar o mundo para fazer poesia ("Porque a gente também sabia que só os absurdos 
enriquecem a poesia
")

Não entendi nada! =(

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