O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Os paradoxos do progresso e o que significa ser
humano
Até certo ponto, não é difícil prever o futuro: basta criar
cenários a partir de elementos da nossa memória. Prever
é imaginar, e os blocos de construção que usamos na
imaginação são feitos de registros de que recordamos.
Ou seja, só conseguimos elaborar mentalmente algo
desconhecidos a partir do que conhecemos,
rearranjando os blocos.
O que torna as previsões difíceis são as possibilidades
de rearranjo. Quanto mais complexo for o fenômeno em
questão, mais difícil acertar: os muitos elementos
envolvidos elevam exponencialmente as possibilidades
de interconexão, complicando a tarefa. Esse é o grande
desafio de prever o futuro da sociedade com a
multiplicação das inteligências artificiais. A sociedade
atual é extremamente complexa, com interligações muito
profundas, fazendo com que o acréscimo de um fator tão
inovador, como as IAs, torne qualquer previsão no
máximo um chute.
No entanto, é possível arriscar alguns palpites, já que
existe um aspecto presente em todos os cenários
possíveis e que nunca muda muito: a natureza humana.
As tecnologias podem se transformar e nos surpreender,
mas se alguém fosse capaz de imaginar como nossa
essência se articula com elas, poderia criar cenários
plausíveis para o que quer que o futuro nos reserve.
Pois foi exatamente isso que Kurt Vonnegut fez em seu
livro de estreia, em 1952, Player Piano (lançado no Brasil
pela editora Intrínseca como Piano Mecânico). No
romance, a terceira guerra mundial foi vencida pelos
Estados Unidos da América graças à revolução
tecnológica do país, que passou então a investir todo
seu esforço na automatização da vida. Com isso as
pessoas foram perdendo suas funções, só sobrando
trabalho real para os cidadãos cujo QI − que passou a
ser publicamente registrado − lhes permitia ser
engenheiros. Eles cuidavam das máquinas, que
cuidavam de todo o resto. Para as outras pessoas pouco
sobrou: alguma coisa de serviço doméstico (embora ele
fosse cada vez mais tedioso e automático), a construção
de obras desnecessárias - apenas para manter os
desempregados ocupados -, ou o exército, que usava
armas de brinquedo já que a paz estava garantida.
O cerne da distopia (e que parece cada vez mais
plausível) está na maldição de termos nossos desejos
realizados. Criando máquinas que possam fazer tudo o
que queremos acabamos esvaziando a experiência
humana; terceirizando não apenas as tarefas, mas as
próprias decisões, reduzimo-nos inadvertidamente à
insignificância − a vida humana deixa de ter significado.
Numa época em que não existiam computadores
pessoais, em que os transistores mal haviam sido inventados, Vonnegut imaginou o que as IAs poderiam
se tornar: "Uma terceira revolução, é? De certo modo,
acho que ela vem acontecendo há algum tempo se você
considerar máquinas pensantes. Acho que essa seria a
Terceira Revolução: máquinas que desvalorizam o
pensamento humano". Mas tornou-se realmente profeta
ao relacionar sua previsão com a nossa natureza,
identificando um paradoxo do progresso: o desejo por
mais tecnologia para ter menos trabalho é tão forte como
a necessidade de nos sentirmos agentes e relevantes.
Dois fatores que parecem ser parte da nossa essência,
ou seja, estavam presente então, seguem conosco e não
parecem que irão algum dia nos deixar.
Por isso a solução para os dilemas do progresso não
pode ser tentar frear o avanço tecnológico, mas não
negligenciar nossa inescapável natureza. Pois como diz
um personagem "Sem levar em conta os desejos dos
humanos, quaisquer máquinas, técnicas ou formas de
organização capazes de substituir humanos
economicamente realmente os substituem. (...) [mas] por
natureza, os humanos não parecem capazes de ser
felizes se não estiverem envolvidos em
empreendimentos que os façam se sentir úteis".
A reflexão sobre Vonnegut e a natureza humana mostra
que a tecnologia, por mais avançada que seja, não altera
certas características essenciais do homem.
Com base nessa ideia, qual é o principal ponto de
equilíbrio proposto pelo autor para enfrentar os dilemas
do progresso?
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